segunda-feira, 2 de abril de 2007

REVENDO O FILME 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, APÓS 2 SEMESTRES DE FILOSOFIA

“Ouvindo não a mim mas ao logos, é sábio concordar ser tudo-um.” - Heráclito de Éfeso (fragmento 60)


Quando vi pela primeira vez 2001, jovem e inexperiente demais, não consegui perceber suas facetas poéticas que permitem várias interpretações (o próprio Arthur C. Clarke fez questão de preservar o enigma do filme nas entrevistas, pelo que pesquisei na internet). Seguem aqui algumas delas, após um breve convívio (dois semestres apenas) com a Filosofia.

O filme começa e termina com a bela obra de Strauss, "Assim falou Zaratustra", como fundo musical. Já o título da música é sugestivo, por ser o mesmo do livro considerado a obra-prima de Nietzsche por ele mesmo. O começar e terminar do mesmo modo nos leva a pensar que início e fim podem ser ilusões, nos levam ao tempo ayón, que os gregos consideravam como um presente eterno sem início nem fim, e não ao tempo cronos, nosso tempo "moderno", determinado pela aparente ordem dos relógios*. Daí podemos tocar a teoria do eterno retorno de Nietzsche, seu pensamento mais profundo (segundo ele mesmo), e ouvir "com outros ouvidos" a bela música de início e fim.

Esse jogo de início=fim, também podemos perceber por o filme se iniciar e acabar com o misterioso monolito (ou megalito ou obelisco negro) entrando em formação perfeita com outros corpos celestes alinhados. Como se o momento perfeito, o momento único, fosse aquele agora, eternamente e perfeitamente se repetindo nele mesmo, já que não há início nem fim sob essa perspectiva.

Nas primeiras cenas, nossos ancestrais cobertos de pelos vêem de longe o monolito, que interpreto como sendo o conhecimento (logos), ou a vontade de conhecer mais, de ser mais, de poder, de potência... A curiosidade que nos move para frente. Depois, temendo sempre, se aproximam... Depois, sempre num avanço lento, o tocam. Tocam sua negra, perfeitamente lisa e geométrica forma (e lembro da importância que os gregos davam para a geometria nas épocas remotas, do nosso alvorecer do pensar). É a partir desse toque no monolito, e só a partir de então, que começam a desenvolver instrumentos com ossos. Daí há um corte magistral e a tecnologia avança até as naves espaciais, como um osso jogado ao céu por mãos humanas. Note-se que a evolução começa a partir do conflito com o semelhante, desde o início...

Outro ponto interessante é a visão do micro no macro, certamente proposital, em várias cenas, como as de quando o astronauta chega a Júpiter e passa por uma viagem insólita, aparentemente até dolorosa, onde brotam cenas mais e mais estranhas até voltar a uma certa paz e chegar ao fim do filme, que descrevo abaixo. Algumas cenas estranhas da viagem: espermatozóide indo pro óvulo ou galáxias se formando? Um feto ou um corpo celeste gigante se formando?

O fim do filme mostra o astronauta envelhecendo rápido, num fluxo de tempo estranho, cortado, vendo a si mesmo mais velho e, assim, se tornando aquilo que via, progressivamente. Quando está bem velho, quase morrendo, se torna um feto, antes de nascer. A música volta a ser o "Assim falou Zaratustra". Fim=Início. E, como no início do filme, o misterioso monolito aparece. E o velho viajante, ainda antes de se tornar feto, aponta para ele, quer tocá-lo, e talvez se veja nele. Se tudo é um, somos parte dele e ele, parte de nós. E viajando ainda mais, será que o velho tenta tocar esse pensamento profundo, como um próximo nível da evolução humana? Do mesmo modo como seus ancestrais quase macacos no início do filme... Como o homem, querendo tocar o impossível.

Em 2001, nossa raça precisou ir a Júpiter, procurando extraterrestres, com a ajuda de uma tecnologia que atrapalha mais que ajuda (o computador HAL, evolução dos ossos das cenas iniciais), para chegar a si mesma, como parte integrante de um todo eterno.

*OBS: As concepções de tempo como ayón e cronos, na verdade, surgiram ambas já na Grécia antiga. O que quis dizer com cronos moderno é que, hoje em dia, basicamente só nas faculdades de Filosofia (e algumas religiões) é que se fala em outras concepções de tempo, diferentes do cronológico. Agradeço ao Rodrigo Sinoti pelo papo e ajuda com esse texto.

(Fabio Rocha)

Links interessantes sobre o filme:

http://blog.uncovering.org/archives/2005/05/os_filmes_da_mi_2.html

http://www.kubrick2001.com/

http://clientes.netvisao.pt/amalmeid/2001_odissey.htm