quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ZARATUSTRA E O ETERNO RETORNO

Esse trabalho visa analisar o conceito de eterno retorno de Nietzsche, que, aliás, ele mesmo considerava como seu pensamento mais profundo, e nunca foi finalizado em vida. Abordaremos as passagens "Da redenção" e "Da visão e do enigma" do livro "Assim falou Zaratustra".

(Outros trechos nietzscheanos que tratam do eterno retorno: "O convalescente", "Os sete selos" ainda no "Assim falou Zaratustra"; aforismo 341 do "A gaia ciência"; aforismo 56 do "Além do bem e do mal"; e trechos dos fragmentos póstumos, que podem ser encontrados no livro "Nietzsche" da coleção "Os Pensadores", da Abril Cultural.)

Parte 1 - DA REDENÇÃO

Aqui Zaratustra, cercado de aleijados e mendigos, numa clara referência a Jesus Cristo. Quando lhe falam para que os curasse, ele responde: "Se ao corcunda tiramos a corcunda, riramos-lhe o espírito." Ou seja, o espírito da gravidade, a carga, o peso do "Tu deves" que o camelo aceita (e pede mais) nas três transformações, não deve ser retirado por alguém exterior. Acredito que aqui, Nietzsche está ressaltando a importância do próprio caminhante fazer seu caminho ao caminhar, e também da aceitação da dor individual como fator de fortalecimento, de constituição de cada indivíduo: "E, se ao cego se dá a vista, vê ele demasiadas coisas ruins na terra: a tal ponto que amaldiçoa aquele que o sarou." Essa passagem está em harmonia com o aforismo 19 da terceira parte da "Genealogia da Moral", que fala do "amor ao próximo" como também uma forma de vontade de poder, pois há uma alegria em causar alegria, "felicidade da 'pequena superioridade', que acompanha todo ato de beneficiar, servir, ajudar [...]"

Logo depois, Zaratustra trata da falta de unidade artística nas pessoas, sua fragmentação ("A este falta um olho, e àquele, uma orelha[...]") ou especialização excessiva ("Isso aí é uma orelha, uma orelha grande como um homem!"), numa clara crítica ao músico Richard Wagner.

Então, Zaratustra entra no tema temporal: "E se fogem do presente para o passado, sempre meus olhos encontram a mesma coisa: fragmentos e membros avulsos e horrendos acasos - mas não homens! O presente e o passado na terra - ah, meus amigos, é isso, para mim, o mais insuportável; e não saberia viver, se eu não fosse também, um vidente daquilo que deve vir." Zaratustra vê o homem como uma ponte para o super-homem. Essa é sua motivação. E o passado é algo a ser "redimido": "Transformar todo 'Foi assim' em um 'Assim eu o quis!'[...]". Afirmar todo o passado, de forma ativa e não reativa, isso é o que Zaratustra propõe. Olhar sobre nossa própria história e a história da humanidade como algo que foi do nosso desejo, nossa vontade criadora, que nos torna o que somos... E assim unificar passado e futuro no presente, "Juntar e compor em unidade o que é fragmento e enigma e horrendo acaso." O "foi assim" nos deixa impotentes espectadores passivos em relação ao passado, potenciais vítimas do niilismo, o grande cansaço. "O querer liberta." Nessa "reconciliação com o tempo", podemos vislumbrar já o eterno retorno, misturando e unindo passado e futuro: "Assim eu o quis! Assim hei de querê-lo".

Parte 2 - DA VISÃO E DO ENIGMA

Essa passagem me parece particularmente interessante por demonstrar algum medo e paralisação de Zaratustra frente ao pensamento mais profundo de Nietzsche, o eterno retorno, alcançado após longa e árdua caminhada: "A subir - a despeito do espírito que o puxava para baixo, para o abismo, o espírito de gravidade, meu demônio e mortal inimigo. A subir, muito embora ele estivesse sentado nas minhas costas, meio anão, meio toupeira; aleijado, aleijador; pingando chumbo em meus ouvidos e pensamentos como gotas de chumbo no meu cérebro." Vejo nessa linda metáfora uma luta pela qual muitas pessoas passam diariamente, uma busca por pensamentos elevados, enquanto a realidade nos distrai, nos enche com o peso das preocupações com a sobrevivência e de "deveres" que lutamos para não aceitar como nossos. O peso do "Tu deves..."

Só quando Zaratustra se livra, vence esse anão, é que chega ao eterno retorno: "Mas a coragem é o melhor matador; mata, ainda, a morte, porque diz: 'Era isso a vida? Pois muito bem! Outra vez!'." Essa é uma postura positiva, afirmativa, dançarina, alegre de alguém que aceitaria um eterno retorno de sua própria vida se repetindo para sempre. Como um Sísifo sorridente a cada subida da pedra ao alto da montanha. Notem a importância que damos a cada pequeno ato e escolha do momento presente, se considerarmos que ele se repetirá pra sempre como fazemos no agora...

Ao mesmo tempo, Zaratustra nota o portal que estava a sua frente: "Olha esse portal, anão! Ele tem duas faces. Dois caminhos aqui se juntam; ninguém ainda os percorreu até o fim. Essa longa rua que leva para trás: dura uma eternidade. E aquela longa rua que leva para frente - é outra eternidade. Contradizem-se esses caminhos, dão com a cabeça um no outro: - e aqui, neste portal, é onde se juntam. Mas o nome do portal está escrito no alto: 'momento'." Assim é o tempo eterno de Nietzsche, infinito para trás (passado) e para a frente (futuro), porém sem ser circular. São caminhos retos. A repetição se dá pela configuração de cada instante, como resultado da luta de forças de cada momento, ter uma quantidade finita, enquanto o tempo é infinito para trás e para a frente. Assim, em algum momento, a configuração da luta de forças será exatamente igual a agora e, na minha perspectiva pessoal, escreverei novamente essa frase.

É aí que vem o medo a Zaratustra. "[...] Tinha medo dos meus próprios pensamentos." O luar do agora o leva a um luar do passado, a um assustador cão uivando para esse luar à meia-noite, arrepiado. Aqui sabemos de dados biográficos, que Nietzsche teve essa experiência real durante uma mudança de residência na sua infância. E surge a visão: "Vi um jovem pastor contorcer-se, sufocado, convulso, com o rosto transtornado, pois uma negra e pesada cobra pendia da sua boca." Zaratustra tenta arrancar a cobra com a mão sem sucesso e grita "Morde! Morde!". O pastor parece ser o próprio Zaratustra, e a pesada cobra negra o niilismo. Porém, por essa imagem de terror aparecer justamente no retorno à infância do autor, quero colocar em dúvida se não pode representar também o seu pai, pastor protestante que pregava sua fé através da palavra, podendo a pesada cobra saindo de sua garganta representar justamente isso. Nesse caso, a mordida na cobra representaria também o corte do próprio Nietzsche com a tradição cristã de sua família, uma morte e uma nova vida: "O pastor, porém, mordeu, como o grito lhe aconselhava [...] Não mais pastor, não mais homem - um ser transformado, translumbrado, que ria!"


BIBLIOGRAFIA:

NIETZSCHE, F. Assim falou zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

____________. Genalogia da moral. São Paulo: Companhia da Letras, 2006.

(Fabio Rocha)

2 comentários:

Edson Marques disse...

Reservei-me esta noite para te ler.


Espero que Zaratustra compreenda... rs!

Abraços, flors, estrelas..

Fabio Rocha disse...

Que prazer, Edson, obrigado! Zaratustra sabe de tudo e de nada, vai deixar, sorrir e dançar... :) Abração