sábado, 21 de março de 2009

Ceticismo

Através da História, a liberdade do pensamento foi o que propiciou o surgimento e posterior desenvolvimento do Ceticismo. Isto porque em sociedades pluralistas e com diferentes culturas e formas de pensar distintas convivendo, naturalmente surge o pensamento mais questionador. Ao se deparar com tantas “verdades” distintas, naturalmente se questiona: “Qual é a mais certa?” Ou “Existe uma verdade única?” Os céticos tendem a rejeitar sociedades ou instituições onde uma única forma de pensar é imposta a todos dogmaticamente, sem espaço para a reflexão crítica.

Sua origem remonta a Pirro, contemporâneo de Aristóteles, que viveu no século IV a. C. Desde então, o que se chamou de ceticismo variou muito ao longo da história.

O ceticismo é uma forma particular de filosofia, pois não tem como base um conjunto de teses sobre algo. Nem pretende ser um conhecimento. A grande característica do cético é manter uma “atitude crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto a verdade.” (1) Por isso o ceticismo nunca deixa de ser atual.

A filosofia se caracteriza por ser uma investigação racional, com o objetivo de estabelecer a verdade de algumas teses e a falsidade de outras através de argumentos racionais e imparciais. Porém, os filósofos ditos “dogmáticos” não cumprem tal característica, já que tendem a não reconhecer qualquer argumento contra as suas teses. E mais: “De maneira precipitada e parcial, aceitaram teses questionáveis.” (2)

A exigência filosófica de argumentos rigorosos e imparciais é veementemente cumprida pelos céticos, que a elevam a um outro nível. Ao examinarem cuidadosamente todos os argumentos envolvidos em um problema, a favor ou contra qualquer tese, se tornaram excelentes argumentadores. “Uma investigação madura costuma mostrar-lhes que a qualquer tese filosófica se pode opor uma outra tese filosófica, de igual força persuasiva e contrária à primeira, de modo que não haveria como aceitar nenhuma das duas.”(3) Aí está a suspensão do juízo, característica do ceticismo.

Os céticos não nos trazem um pretenso conhecimento verdadeiro sobre as coisas, mas um discurso e um método complexo que nos faz questionar o que achamos saber. Organizaram várias formas de argumentação contra qualquer dogmatismo e mostrar que não se chegou ainda à verdade. Assim, mostram que não há nenhuma garantia de que conhecemos o que pensamos ou alegamos conhecer. Segundo eles: “Não sabemos nada, não temos certeza de nada e podemos colocar tudo em dúvida; sequer sabemos que nada sabemos” (4). Assim, nem Sócrates, ao afirmar que nada sabia pode ser considerado um cético, pois saber que nada sabe já é saber algo.

Graças a seu caráter crítico poderoso, e com uma metodologia coerente, o desafio cético mantêm-se até mesmo hoje como um obstáculo inevitável para qualquer tipo de filosofia que pretenda assegurar a verdade de suas teses. Ao mesmo tempo, refutar o ceticismo e suas teorias acabou por se tornar uma obsessão para os filósofos dogmáticos, “sobretudo daqueles que se interessam pela teoria do conhecimento, já que a possibilidade do conhecimento e a descoberta da verdade é um assunto essencial para todos os céticos.” (5)

Pode se dizer que uma pessoa sabe algo quando cumpre três condições:
1 – ela crê no que diz (ou pensa);
2 – sua crença tem que ser verdadeira;
3 – ela precisa justificar de modo adequado sua crença.
Assim, o conhecimento é definido como uma crença verdadeira justificada. O cético questiona as condições 2 e 3, ao perguntar se nossas crenças não poderiam ser falsas, mesmo que pensássemos o oposto. Além disso, mesmo se fossem verdadeiras, não poderiam ser justificadas.

O ceticismo nos faz examinar melhor como conhecemos (ou pensamos conhecer) a realidade. A percepção sensível é a base de como apreendemos o mundo, através dos cinco sentidos. Mas há uma grande diferença entre a causa do processo (um objeto exterior a nós) e o efeito produzido em nós (uma percepção). Este processo está sujeito a excessivas variações e deformações entre o que o objeto é e como o sentimos. Por exemplo, pelos sentidos, podemos achar que o sol tem o diâmetro de uma bola de basquete... Assim, o efeito final do processo pode ser muito diferente da causa inicial (o objeto em si). “Os sentidos têm um valor prático inestimável, mas nenhum valor cognitivo.” (6)

Outro argumento utilizado pelos céticos tem como base a variação das sensações. Como nossas sensações mudam e o objeto permanece o mesmo, nem todas podem ser verdadeiras. Podemos pensar que uma mesa branca é azul, por estar com uma luz azul sobre ela, por exemplo.

Outra hipótese cética é desenvolvida no filme Matrix, onde podemos pensar, pelas sensações, estar vivendo, enquanto, na verdade, estamos apenas presos numa espécie de casulo, com computadores ligados ao nosso cérebro nos transmitindo falsas sensações. Outra hipótese é a do sonho: após um sonho muito realista, não distinguimos bem se estamos acordados ou dormindo. E, durante ele, tudo parece real. Todas essas hipóteses servem para nos mostrar que talvez não saibamos o que pensamos saber, e que o mundo pode ser bem diferente do que nos parece.

Acho válido destacar que o ceticismo não é um ataque ao conhecimento e às crenças comuns da maioria das pessoas. Para os céticos, são os filósofos dogmáticos que atacam primeiramente nosso saber comum e nossas crenças banais. “Os dogmáticos recusam que sabemos o que cremos saber, porque eles tem em mente uma concepção muito forte de conhecimento e porque eles exigem uma justificação que garanta a verdade das crenças. [...] Os céticos antigos, em sua polêmica com os dogmáticos, apenas exploraram a concepção de realidade e conhecimento, fazendo essa voltar-se contra os próprios dogmáticos.” Assim, o ceticismo é uma defesa da vida cotidiana, ao preservá-la dos ataques dos dogmáticos.

Referências:
1- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 8
2- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 8
3- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 8
4- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 9
5- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 9
6- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 13



Bibliografia:

SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.


(Fabio Rocha) 2009

Nenhum comentário: