quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O masculino e o feminino com forças da natureza?

Hoje, quando falamos em tragédia ou acontecimento trágico, não usamos o sentido filosófico do trágico, que Nietzsche percebeu na tragédia grega. Para ele, a tragédia era a forma de arte mais elevada, pois nela o sentido do termo "trágico" era uma afirmação da realidade, fosse ela qual fosse.

Em seu primeiro livro, de 1872, "O nascimento da tragédia", Nietzsche explica a tragédia grega surgindo da união de dois instintos artísticos opostos que se manifestam na própria natureza (e não apenas nos homens): o apolíneo e o dionisíaco. Apolo é o deus da ordem, da precisão, da razão, da luz, da medida, da forma e da ordem. Dioniso é seu oposto e rival: ligado ao dilaceramento, à imprecisão, à escuridão, ao mistério, ao sonho, à embriaguez, ao êxtase, à perda de limites, à dissolução do individual e comunhão com a natureza. As festas para este deus, onde se perdia totalmente os limites, num terror dionisíaco (para os romanos o deus tinha ouro nome: Baco - daí surgindo o termo "bacanal" para estas celebrações). A tragédia, na teoria desenvolvida por Nietzsche, era a arte mais elevada pois conseguia mostrar o dionisíaco em harmonia com o apolíneo. Não mais uma festa caótica de embriaguez, nem o que viria a se tornar o teatro - sem música nem participação do público no espetáculo.

Mas o que quero destacar nesse trabalho é que essas forças opostas e complementares, para Nietzsche, estão em tudo, pois surgem da própria natureza. E de sua eterna batalha nasce a harmonia, como já falava Heráclito, filósofo pré-Socrático, há mais de cinco mil anos trás: "o contrário em tensão é convergente; da divergência dos contrários, a mais bela harmonia." (fragmento 8)

Aqui podemos explorar melhor o tema do semestre. Sendo forças gerais, de toda a natureza, será que podemos pensar também o apolíneo como masculino e o dionisíaco como feminino? Não há consenso na filosofia sobre isso. Aceitando tal hipótese, e indo mais além: será que estes impulsos dividem-se ao formar homens e mulheres ou misturam-se em cada homem e em cada mulher? A história mais recente das relações humanas parece ter mostrado uma mudança no papel do homem e da mulher em que cada vez mais o indivíduo parece poder mostrar socialmente que traz em si as duas forças reprimir cada vez menos). O homem-machão-provedor-insensível-do-mundo e mulher-emotiva-passiva-de-casa parecem cada vez menos reais. Será que está nascendo em cada indivíduo a bela harmonia de que Heráclito falava?

Jung achava que sim. E, resumidamente, nisso consistia a sua teoria da individuação: que cada indivíduo, ao longo de sua vida, tenderia a equilibrar seu masculino e seu feminino, assim como qualquer força oposta desequilibrada. Ele ia além e falava que a própria sociedade também tenderia a esse equilíbrio. E é o que parece realmente estar acontecendo. Ele falava de um ponto chave na vida do indivíduo: os 50 anos. Se alguém levasse uma vida com muita tendência para um dos lados, após esta idade, tenderia a ir para o outro, para compensar. A carreira do ator e diretor Clint Eastwood parece confirmar essa teoria. Até os 50, fez filmes extremamente "masculinos", de faroeste, violência, ação. E, ao passar este marco, fez e dirigiu filmes muito mais sensíveis, iniciando com o belo "As pontes de Madison" (The Bridges of Madison County, 1995).

Fabio Rocha (trabalho publicado em http://spag-rj.blogspot.com )