terça-feira, 12 de junho de 2007

ANÁLISE DO “DOS DESPREZADORES DO CORPO” (Parte do “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche)

Nietzsche já inicia esse belo texto cheio de ironia e vigor: se você despreza seu corpo, acredita que tudo corpóreo é pecado, crê no “platonismo para o povo” que é o cristianismo, que separa o corpo impuro da alma maravilhosa, julga que há um céu divinal a te esperar após esta vida terrena, extremamente suja, material, impura, então você não deve mudar nada, mas apenas começar a praticar o que acredita: pare de usar seu corpo. Ou seja: mate-se. Ou, menos drasticamente, pare de falar e ouça (ou leia).

A criança que jogava dados consigo mesma em Heráclito (“O tempo é uma criança, criando, jogando o jogo de pedras; vigência da criança.” - fragmento 52) aparece no texto dizendo que é corpo e alma, sem separá-los ou distingui-los.

Mas o adulto, “sabedor”, “desperto” (note-se que não é qualquer adulto), afirma que ele é todo corpo. Crê que “a alma é apenas uma palavra para alguma coisa no corpo”. Ou seja, o corpo parece ser maior, mais importante que a alma.

O corpo não é estático nem único, é uma “multiplicidade”, “guerra e paz”, guia e algo a ser guiado, tudo ao mesmo tempo. E é também uma “grande razão”. Note-se aqui que não é o cérebro ou a alma uma “grande razão”, mas o corpo, em sua plenitude. O pensar é do corpo, para Nietzsche, assim como o sentir e os sentidos. Por trás de cada pensamento e sentimento, está o corpo, ou o “ser próprio”. Essa imagem me parece semelhante a teorias de psicanálise, pois podemos achar que sabemos todas as razões para agirmos de tal ou qual forma, e na verdade, nosso inconsciente pode interferir muito no processo. Também podemos pensar nos instintos animais, que podemos seguir nos atos mais triviais, sem que passe por nossa “razão” (por exemplo, o reflexo involuntário de retirar a mão de algo que a queime). Resumindo, há realmente algo maior que a razão e os sentimentos em nós. “Há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria”.

O corpo ri dos devaneios do pensamento, que seriam “rodeios para chegar aos seus fins”. Realmente, quantas vezes não nos enganamos praticando atos “nobres”, ou divagando por teorias filosóficas complicadíssimas, quando na verdade o que queremos é suprir as vontades corpóreas? Ser amado, ser tocado, ter prazer...

O “eu” de que falamos nada mais é do que uma construção do nosso corpo. Nosso “eu” não é estático e definido, mas o que o nosso corpo constrói, cria. Cria, inclusive para além de si, se você não for um desprezador do corpo (que desistiu de criar para além, logo, desistiu de viver, despreza não só o corpo, mas a vida). Por não haver desistido, segue uma tentativa de criação, ou um resumo em verso da aula sobre os desprezadores do corpo:


NIETZSCHEANA NÚMERO 1

Cidade nossa cheia de prédios
por onde passam ambulâncias
e carros de polícia...

Pessoas nascem
envelhecem
e morrem...

Contra isso,
criar
e querer
mastigar
o impossível.

Em cada
movimento
seguir a justa medida:
espada do guerreiro grego cheia de sangue
regendo o bolero de Ravel.

Não precisar
seguir Buda e não querer
seguir Cristo e negar o querer
e desistir do mundo e do corpo.

Ao contrário!
Fazer do corpo
de cada gesto
de cada pensamento
prazer e beleza
criando o que se é.

(Será que poderia
fazer este poema mil vezes
sem me arrepender?)

A dança
de nossa multiplicidade
faz o Eu
tornar-se verdade.

O passo adiante:
o mundo.

(Fabio Rocha)

2 comentários:

Adriano Cézar disse...

Bela análise Fábio, no mesmo capítulo do Zaratustra 'Dos desprezadores do corpo', Nietzsche cita o tal 'Si-mesmo' como oposição ao EU(criador), saberia me explicar o que é esse 'Si-mesmo" ?
Desde já obrigado. Curti sua página no Fb ;)

Anônimo disse...

Rapaz, faz tanto tempo esse post e essa leitura que não lembro mais, desculpe. Bom saber que curtiu. Abração, Fabio.