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EPICURO E NIETZSCHE: FILOSOFIA PARA A VIDA

EPICURO E NIETZSCHE: FILOSOFIA PARA A VIDA (Fabio Rocha)




Esboço do trabalho:

- Introdução
- Capítulo 1 – Vida de Epicuro e de Nietzsche
- Capítulo 2 – Amor fati e felicidade epicúrea
- Capítulo 3 – Negação do além-mundo
- Capítulo 4 – A morte
- Capítulo 5 - O pensamento de Epicuro e Nietzsche na realidade contemporânea



“[...] Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.”

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), in Odes de Ricardo Reis, trecho final de “Não Só”


“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das coisas”...
“Sentido íntimo do universo”...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensinar)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.”

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), in “O Guardador de Rebanhos” - Poema V



Introdução

Há um fragmento de Epicuro que continua absolutamente atual que diz:

“Devemos começar a filosofar desde a mocidade, porém sem deixarmos de o fazer, cansados, na velhice. Para realizar algo em prol da saúde espiritual, ninguém é demasiado moço nem muito velho; mas quem, porventura, supuser que, para filosofar, está moço ou velho, em demasia, dirá do mesmo modo que o instante exato da sua felicidade ainda não chegou ou já se foi.” (1)

O homem contemporâneo está distante dessa compreensão. Vivemos a procura de algo que não sabemos bem o que é, aceitando a possibilidade de ser uma “felicidade”. Não a felicidade como era vista por Epicuro, mas uma felicidade inatingível, que buscamos através de conquistas a serem alcançadas: fama, dinheiro, ou qualquer coisa que ainda não temos, futura, difícil, e, se pensarmos bem, quase sempre inalcançável por estar sempre distante do momento presente. O lugar do desejo real de cada indivíduo (ponto chave da teoria psicanalítica de Freud) é preenchido com o que nos mostra a mídia, a família, os padrões de comportamento ou até as empresas com suas propagandas de produtos. Além disso, vivemos numa época onde o senso crítico é raro e o homem vive cercado de medos, que muitas vezes os levam ao refúgio das religiões tradicionais e seus dogmas inquestionáveis. Este cenário mostra a importância de repensarmos hoje, com a ajuda da filosofia de Epicuro e de Nietzsche, nosso modo de viver.


CAP. 1 – Vida de Epicuro e de Nietzsche

Epicuro nasceu na ilha de Samos em 341 a.C., embora fosse, por direito, cidadão de Atenas, já que seu pai, Neócles, emigrou em 352 a.C. para colonizar a ilha de Samos. Lá, doze anos mais tarde, nasceria Epicuro. Ele foi o segundo dos quatro filhos de Neócles, e aquele que o ajudava no trabalho de mestre-escola.
Epicuro viveu já no período de decadência da pólis grega. A conquista macedônica enfraquecia, pouco a pouco, os ideais de coletividade e de cidadania. Assim, toda a filosofia de Epicuro, volta-se para a autarquia (autarkeía) e para a busca de uma felicidade (eudaimonia) baseada muito mais no indivíduo do que na coletividade.
Outro ponto importante a ser destacado é que o elitismo do conhecimento também sofreu um abalo com a perda da independência grega, o que acabou proporcionando uma concepção mais igualitária do saber. Epicuro aceitava em seu jardim a todos: homens, mulheres ou escravos. Assim, inaugura uma ética igualitária, acessível à inteligência de todos os homens capazes de se abrir para uma nova forma de ver a realidade, sem superstições, dogmas ou preconceitos. Ele escreve no final da carta a seu discípulo Heródoto: “Todos aqueles, contudo, que ainda não se contam entre os perfeitos, podem, com o auxilio deste esboço, efetuar em pouquíssimo tempo, mesmo sem aula oral, a jornada através das questões capitais, decisivas, para chegarem à obtenção da sua paz de alma e de espírito.”(2) O acesso é dado a todos, mas não são muitos os que conseguem chegar ao final do percurso.
Epicuro foi influenciado pela física atomística de Leucipo e Demócrito e a ética hedonista dos Sofistas e Cirenaicos, tendo em comum com estes, o prazer como bem maior, mas criticando o prazer sem controle, desmedido, da ética deles. Sua tentativa de compreender a natureza (physis) se mistura à criação de uma ética, um éthos para o homem, ou seja, sua condição plena de realização. Do atomismo, por exemplo, pode ver o homem como microcosmos, parte de um kósmos maior e em equilíbrio. Este mesmo equilíbrio, no interior do homem, geraria o prazer, o sumo bem, tranqüilidade, liberdade (eleutheria) e felicidade (eudaimonia). A busca desse equilíbrio se dava a partir da eustatheía (boa disposição), aponía (ausência de dor) e ataraxía (ausência de perturbações na alma). É interessante notar que Epicuro sofreu de crises renais por toda a vida e o que ele afirmava sobre suportar a dor era experiência própria. Além disso, viveu numa Grécia invadida e dominada. Esses fatores podem ter sido decisivos para a sua visão de felicidade baseada nas situações mais simples e apesar de dor e sofrimentos.
O jardim de Epicuro era o local de um nova prática de existência comunitária entre amigos verdadeiros. Seus moradores cultivavam hortas, na busca da auto-suficiência. Segundo Sêneca, havia a seguinte inscrição na entrada do jardim: “Hóspede, aqui serás feliz; o soberano bem aqui é o prazer.” Como indicamos acima, devemos destacar que Epicuro não praticava um hedonismo vulgar. Para ele, um corpo pode ficar saturado de prazer quando tem pão e água: “[...] Para nós, prazer significa: não ter dores no âmbito físico e não sentir falta de serenidade no âmbito da alma. Pois uma vida cheia de ventura não é formada por uma sequência infinita de bebedeiras e banquetes [...]”(3) . Assim, a ética de Epicuro desloca o local do filósofo da ágora, onde se discursava para toda a cidade, para o jardim, onde conversava com amigos. Numa época em que pátria, cidadania e coletividade perdiam o sentido, Epicuro coloca o novo lugar do sábio no jardim, mais recolhido, com amigos escolhidos apenas: “De todos os bens que a sabedoria nos proporciona para a felicidade de toda nossa vida, o da amizade é de longe o maior.”(4) Assim, a amizade passa a ser o vínculo primordial na comunidade agora sem concidadãos e sem compatriotas. É interessante notar também que o jardim não era apenas um centro de debates e reflexões, como a Academia de Platão ou o Liceu de Aristóteles.
Em suma, a filosofia epicúrea tem como base quatro fundamentos que trazem uma forma de viver da melhor maneira possível, com menos medos e perturbações na alma, o chamado tetraphármakon:
1 – Não há nada a temer quanto aos Deuses (que não interferem na vida humana de um modo geral)
2 – Não há nada a temer quanto à morte (quando a morte chega, cessa a existência)
3 – O prazer é fácil de se obter (se for difícil, não é necessário)
4 – A dor é suportável (se for insuportável, não dura muito)
Epicuro passou por extrema dor física por causa das crises renais durante toda a sua vida. Seu pensamento sobre a dor é baseado em sua própria experiência.
Ele teve uma vastíssima produção, mas, infelizmente, muito de sua obra se perdeu.


Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, em Röcken, na Saxônia. Seus dois avôs foram pastores luteranos, assim como seu pai, que era o pastor local, seguindo a tradição familiar. Em 1856, apaixonado por música e poesia, com apenas doze anos de idade, Nietzsche já apresenta fortes dores de cabeça e nos olhos que, na época, lhe ocasionaram uma licença da escola (ginásio Naumburg). Em 1861, aos 17 anos, começa a se afastar da religião tradicional da família. Nietzsche passa a se interessar por filologia e filosofia (grega, inclusive).
Desde a infância, Nietzsche sofre com sua saúde e desde cedo também não aceita o caráter dogmático da religião de seus pais e avós. Abandonando, inclusive, a faculdade de teologia em 1865.
Na época em que viveu, a Europa passava por uma fase de grande repressão sexual e costumes e normas rígidas de conduta, centralizadas num modelo patriarcal. Esse ambiente proporciona o surgimento, inclusive, das primeiras pacientes de Freud (1856-1939), no campo da psicanálise.
Se notarmos bem, um ambiente repressivo, um momento histórico de rompimento de paradigmas, e males físicos desde cedo em suas vidas deixam Nietzsche e Epicuro com uma trajetória de vida particularmente parecida. O que talvez acabe por aproximar as suas filosofias. “Cada vez mais olho para os filósofos gregos como modelos para o modo de vida a ser alcançado.” (carta a Gersdorff, 26/5/1876). Assim como o filósofo do Jardim, Nietzsche busca no pensamento a condição para uma vida mais harmoniosa. Em 1880, escreve para seu médico: “Minha existência é um fardo terrível: há muito teria me livrado dele se não fizesse os mais esclarecedores experimentos, no campo moral-espiritual, precisamente nesse estado de sofrimento e quase absoluta renúncia.” (carta ao médico Otto Eisler, início de 1880), corroborando o sofrimento físico por que passou durante toda a sua vida.


Nietzsche fala especificamente sobre Epicuro em dois momentos. No aforismo 45 do “A gaia ciência”, destaca justamente o sofrimento como instrumento de seu belo pensamento sereno:

“Epicuro. – Sim, orgulho-me de sentir o caráter de Epicuro diferentemente de qualquer outro, talvez, e de fruir a felicidade vesperal da Antiguidade em tudo que dele ouço e leio: - vejo o seu olhar que se estende por um mar imenso e esbranquiçado, para além das falésias sobre as quais repousa o sol, enquanto pequenos e grandes animais brincam à sua luz, seguros e tranqüilos como essa luz e aquele mesmo olhar. Apenas um ser continuamente sofredor pôde inventar uma tal felicidade, a felicidade de um olhar ante o qual o mar da existência sossegou , e que agora não se farte de lhe contemplar a superfície, essa delicada, matizada, fremente pele de mar: nunca houve uma tal modéstia na volúpia.”(5)

E no aforismo 200 de “Além do bem e do mal”, Nietzsche olha o mesmo Epicuro de um novo ângulo (método de pensamento, aliás, que ele defende em qualquer investigação, não podendo ser caracterizado apressadamente como contradição). A vontade de serenidade agora é vista como debilidade:

“O homem de uma era de dissolução e de mestiçagem confusa, que leva no corpo uma herança de uma ascendência múltipla, isso é, impulsos e escalas de valor mais que contraditórios, que lutam entre si e raramente se dão trégua – esse homem das culturas tardias e das luzes veladas será, por via de regra, um homem bem fraco: sua aspiração mais profunda é que um dia tenha fim a guerra que ele é; a felicidade lhe parece, de acordo com uma medicina e uma maneira de pensar tranquilizante (epicúrea ou cristã, por exemplo), sobretudo a felicidade do repouso, da não-perturbação, da saciedade, da unidade enfim alcançada [...].”(6)

Aproxima, assim, nesta passagem, o pensamento epicúreo do cristianismo, sem perceber, talvez, que a filosofia de Epicuro enaltece o prazer e leva a um aproveitamento melhor da vitalidade e não um arrefecimento da vida (como Nietzsche percebe no cristianismo).


CAP. 2 – Amor fati e felicidade epicúrea

A felicidade epicúrea tem como base o equilíbrio e a harmonia como a da natureza, sempre considerando a medida racional: “Por isso eu afirmo que o prazer é a essência duma vida venturosa. A ele conhecemos como nosso primeiro bem inato, por ele nos deixamos guiar em todos os nossos anelos e abstenções, e por ele nos governamos, medindo todos os outros bens pela sua norma. E, justamente porque o prazer é o nosso primeiro bem, aquele que recebemos pela própria natureza, não zelamos pela obtenção de qualquer prazer, mas deixamos de lado muitos, dos quais finalmente poderia resultar-nos um mal-estar maior ainda. [...]”(7) .
Para Epicuro, o sábio tem a capacidade de viver de acordo com a natureza (katà phýsin): “Eu, que dedico incessantemente minhas energias à investigação da natureza, e através desse modo de viver exerço principalmente o meu equilíbrio.”(8) . Assim, a filosofia de Epicuro, como ele mesmo definiu, é um saber para a vida (tehné tis perì tòn bíon), onde o mais sábio é o mais tranquilo, mais livre e mais feliz. E esse equilíbrio é fonte de prazer. Trata-se de uma filosofia baseada na serenidade e sensatez: “No principio de tudo, porém, encontra-se a razão, o maior dos nossos bens. Dela resultam por si só todas as outras virtudes; na verdade, é mais valiosa ainda que a filosofia, porque nos ensina que é impossível viver prazerosamente, sem que se viva uma vida cheia de razão [...]”(9) .
Sua ética fundamenta-se na autárkeia de cada indivíduo, ou seja, ações baseadas na compreensão da natureza ao invés de reações a tudo o que não é natural nem necessário ao indivíduo (incluindo aí normas e valores da sociedade). Epicuro tenta aqui nos libertar dos grilhões dos padrões da maioria, da multidão que posteriormente Nietzsche vem a chamar de “rebanho”, e que Heráclito bem antes dele já chama de hoi poloi (os muitos). O homem sábio, o homem feliz de Epicuro, ao tentar compreender a natureza e seus fenômenos, percebendo seu equilíbrio cheio de conflitos e amores, pode conseguir dominar seus desejos, paixões e ações tendo como base apenas a si mesmo, sem se prender a nenhum dogma ou padrão externo que não lhe sirva. Sem se forçar a aceitar qualquer forma de agir como melhor ou correta, baseando-se apenas no número de homens que assim age e pensa. A vida feliz (makários zen) resulta desse agir livre.
No aforismo 276 da Gaia Ciência, Nietzsche define: “Amor fati [amor ao destino]: seja este doravante, o meu amor. Não quero fazer guerra ao feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!"”(10) Assim, como visão trágica de vida, o amor fati é uma postura de amar o acaso e um dizer sim à vida como um todo, não a separando em coisas boas (a serem aproveitadas) e ruins (a serem corrigidas). Tudo o que deveria ser “corrigido” ou “consertado” não pertence ao pathos da tragédia, não pertence ao modo de perceber tragicamente o todo. Amor fati é amar tudo que foi, é, e será, sem excluir nada. Para quem vê o mundo através do amor fati, nada é um defeito na existência. Esta visão de partes do todo a serem consertadas como defeito deriva do cientificismo, que invoca a postura de colocar o homem como controlador, explorador e aprimorador da natureza.
Não se trata de resignação, de aceitar tudo (até os “erros”) passivamente. É uma nova perspectiva, difícil de ser percebida por nós, tão acostumados a divisão de tudo entre bem e mal, acerto e erro.
O próprio Nietzsche liga a resignação à felicidade dos fracos no primeiro aforismo de “O Anticristo”: “[...] ficávamos o mais longe possível da felicidade dos fracotes, da ‘resignação’...”(11) Incapaz de se ver como ativo e criador no mundo, o que resta ao fraco é resignar-se com o que aparece (mesmo achando errado ou injusto), esperando, algumas vezes, uma recompensa futura por este sofrimento (nem que seja após a morte). Suportar, como o camelo das três transformações de “Assim falou Zaratustra”, o peso que lhe é imposto e ainda orgulhar-se dele. Isso está longe do Amor Fati de Nietzsche.
O resignado pensa que o mundo e a vida tem defeitos a serem corrigidos, mas se vê incapaz de consertá-los, e os aceita, triste. O amor fati é afirmar a vida como ela é, querendo-a totalmente em todas as suas expressões e formas, de forma alegre e firme.
Na época de Epicuro, essa visão do homem intervencionista na natureza não existia. Sua filosofia buscava a compreensão e não a intervenção na natureza. O homem devia melhorar sua vida ao estudar a natureza, e não corrigir a natureza para melhorar sua vida. Assim, penso que podemos dizer que o esforço que temos que fazer hoje para conseguir perceber a vida através do amor fati, era natural para os gregos em geral. E talvez mais natural ainda em Epicuro, que tem toda a sua filosofia voltada para a felicidade e para o que está próximo ao invés do distante: “Nada é suficiente para quem julga o suficiente demasiadamente pouco.”(12)


CAP. 3 – Negação do além-mundo

Este é outro ponto onde os pensamentos de Nietzsche e Epicuro parecem se aproximar, ao dar toda a importância para o momento presente, o aqui e agora, e minimizar a influência de deuses ou de qualquer outro possível aspecto metafísico na vida.
Epicuro fundamenta seus estudos na physis, a partir da observação da natureza: “Prefiro proclamar abertamente aos homens, baseando-me no meu conhecimento da natureza, aquilo que lhes seja útil, ainda que ninguém o compreenda, a dar, sob caloroso aplauso da multidão, o meu acordo em tolices.”(13) Neste ponto o Epicurismo se iguala à Filosofia imanente do Estoicismo, de sua lei ética que tem como base a busca da felicidade, negação da metafísica e de qualquer possibilidade de transcendência fora da imanência. Sobre os Deuses e sua possível influência em nosso mundo, complementa Epicuro: “É sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar.”(14) , vendo o homem com um papel mais ativo no mundo.
Sobre temer a influência dos deuses na vida humana, Epicuro diz: “Nada adianta construirmos nossa segurança perante os homens, enquanto os acontecimentos no céu e na terra, isto é, no universo infinito, possam causar-nos algum receio.”(15) e “[...] Pois os deuses existem, já que nós somos, evidentemente, capazes de reconhecê-los. Apenas não são como a grande multidão os imagina; pois, assim como eles pensam que os deuses sejam, estes não o são, e não é ímpio o homem que nega o conceito que a massa do povo faz dos deuses, mas sim aquele que tenta imaginar os deuses em conformidade com o conceito popular. O que a multidão declara a respeito dos deuses não corresponde, certamente, à verdadeira compreensão divina, mas apenas a falsas conjeturas. Desse modo, ela considera como providência divina tudo o que acontece de mal para o perverso ou aquilo que beneficia o bom. A multidão estranha tudo que possua uma natureza diferente de sua própria, e assim apenas admite deuses que lhe sejam semelhantes.”(16) Podemos notar que Epicuro critica o conceito de “deuses julgadores”, que dão recompensas para os “bons” e castigos para os “maus” homens (conceito utilizado ainda hoje em muitas religiões). Penso ser válido reforçar aqui a ideia de que Epicuro não nega a existência de deuses, mas sim afirma um afastamento divino em relação às questões humanas. E desestimula toda e qualquer religião como intermediária entre o homem e o sagrado (da mesma forma que Nietzsche, aliás, que preserva em sua filosofia o sagrado relativamente à terra, à vida). O contexto histórico pode ter tido importância nessa sua postura epicúrea, pois a negação da existência divina seria vista como desrespeito aos deuses, o que era considerado crime na Grécia. O próprio Sócrates teve esta como uma de suas acusações, quando foi julgado e condenado.
Em Nietzsche, não é difícil encontrar passagens sobre a importância da imanência e desvalorização de qualquer mundo supra-sensível. Sua crítica à metafísica combate tanto a teoria das ideias socrático-platônicas, quanto o que, segundo ele, surgiu dela: o cristianismo (que ele chamou de “platonismo para o povo”).
Segundo Nietzsche, o cristianismo considera nosso mundo um vale de lágrimas, em oposição ao que há no além, o “mundo verdadeiro”, a felicidade eterna. Assim, olhando a partir deste outro mundo, “autêntico e verdadeiro”, o terrestre, o sensível, o corpo só pode ser visto como o provisório, o inautêntico e o aparente. Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de "um platonismo para o povo", de uma vulgarização da metafísica, que é preciso ser desmistificada. O cristianismo seria a forma elaborada da perversão dos instintos do platonismo, com dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escrava fugir da vida, da luta, da dor, apoiando-se na resignação e na renúncia, considerando-as virtudes. Para Nietzsche, os escravos e os vencidos da vida são os inventores do além para compensar a sua miséria. Inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes, forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo, criaram a ficção do pecado porque não tinham possibilidade de participar das alegrias e da plena satisfação dos instintos da própria vida: “O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso – ele vive nele, ele é ele. [...]”(17)


CAP. 4 – A morte

No seu Zaratustra, Nietzsche mostra o que pensa da sobrevivência da alma após a morte. Quando o funâmbulo tem uma queda mortal, ele lhe diz: “[...] não existe o diabo nem o inferno. A tua alma estará morta ainda mais depressa do que o teu corpo; portanto, não receies nada!”(18) E é justamente esta a filosofia de Epicuro, para não se temer a morte: “A morte nada é para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que não possui mais sentimentos, não nos importa.”(19) . Para ele, a alma é um princípio corpóreo, ligado às sensações e aos sentidos, e não haveria sentido em pensá-la possível com o fim do corpo: “[...] a alma contém em si a causa principal de nossa percepção pelos sentidos [...]”(20) “Quando a massa total dos átomos do corpo se dissolve, então também a alma se dispersa [...].”(21) A idéia de alma eterna deriva de um mito órfico, que, segundo alguns, Platão aceita (não quero aprofundar esta questão aqui, apenas registrar que há controvérsias) e que, posteriormente, o cristianismo usará como base de sua doutrina. Epicuro também fala belamente da morte na carta a Meneceu:

“Além disso, acostuma-te à ideia de que a morte, para nós, é um nada. Todo bem e todo mal residem na faculdade de sentir; a morte, porém, é a privação desse sentimento. Assim, o conhecimento de que a morte nada é torna deliciosa a nossa vida efêmera. Evidentemente, esse saber não modifica o limite temporal da nossa vida, contudo livra-nos do desejo de ser imortais, pois para quem ficou ciente de que nada de terrível existe na ausência de vida, nenhum terror pode haver no viver. Mas se alguém argumentar que não teme a morte por causa da pena que ela trará quando vier, mas sim porque o simples fato da sua vinda já lhe é doloroso, é um tolo; pois é doidice que algo que não nos cause receio quando acontecer, possa trazer-nos pena, durante a espera, pelo fato de ser esperado!
Assim a morte, o mais temível de todos os males, é para nós um nada: enquanto nós existirmos, não existirá ela, e quando ela chegar, nada mais seremos. Desse modo, a morte não toca nem os vivos nem os mortos, porque onde estão os primeiros não se encontra ela, e os últimos já não existem mais.
É verdade que a grande massa do povo evita a morte como o mais terrível dos males, mas deseja-a, por outro lado, como se fosse o descanso das labutas da vida. O sábio, porém, nem nega a vida nem tem temores de não mais viver, pois aquela não lhe é repugnante, e ele não considera o não-mais-viver como se fosse um mal. Do mesmo modo que, na refeição, ele não faz questão absoluta da quantidade desmesurada, mas dá maior valor à preparação gostosa, igualmente na vida não se preocupa com o tempo que esta dura, mas sim com a delícia da colheita que ela lhe traz.”(22)

Epicuro vai além, tentando mostrar racionalmente o quanto o medo da morte pode atrapalhar a nossa vida: “Nascemos uma única vez; uma segunda vez não nos é dada, e não nasceremos mais por toda a eternidade. Apesar disso, adias constantemente o instante certo e não és dono do dia vindouro. Nessa vacilação, porém, desvanece-se a vida e muitos morrem sem jamais se terem permitido um verdadeiro descanso.”(23) Podemos pensar aqui em Epicuro como talvez o primeiro psicanalista da História: ele não fala diretamente do conceito de inconsciente, mas antecipa essa percepção contemporânea, ao perceber que as pessoas carregam consigo um temor constante da morte, que pode se apresentar em manifestações disfarçadas tais como acumular riquezas, poder ou honrarias. Ou seja, consomem em excesso, tentam se eternizar através de obras de arte, se apegam a religiões ou crenças no pós-vida, no fundo, por causa do temor da finitude: “Alguns procuram fama e prestígio acreditando conseguir com isso segurança perante os homens. Se viverem em segurança, receberão então também esse bem natural. Se, porém, a sua vida não for segura, nem sequer possuem aquilo pelo que anseiam em primeiro lugar, obedecendo à sua natureza.”(24)
Uma outra percepção importante sobre a finitude que deve ser lembrada aqui é o eterno retorno nietzschiano, que aparece no aforismo 341 do A Gaia Ciência:

“O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo não mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente - e você com ela, partícula de poeira!’ – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: ‘Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!’ Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, ‘Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?’, pesaria sobre seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?”(25)

Assim, querer a repetição do mesmo nos faz querer viver bem cada momento. E para uma vida onde se viveu bem cada momento, valorizando-se o que estava presente e não a falta (como tenta nos fazer viver a propaganda, em nosso mundo consumista atual), a eterna repetição é uma benção e não uma maldição. Sob esse prisma, viver temendo a morte seria uma eterna maldição, realmente, e, ao contrário, viver saboreando cada instante seria um prazer eterno, independente do tempo. Esse pensamento do eterno retorno parece-me um instrumento de grande valor para tentarmos racionalmente vivermos bem o instante presente, que é o que a filosofia de Epicuro também defende: aproveitarmos bem cada momento desta nossa única e breve vida.
Há ainda outra perspectiva sobre o medo da morte que pode ser explorada a partir deste trecho da “Genealogia da Moral”:

"Esse homem que, por falta de inimigos e resistências exteriores, cerrado numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes, impacientemente lacerou, perseguiu, corroeu, espicaçou, maltratou a si mesmo, esse animal que querem amansar, que se fere nas barras da própria jaula, esse ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em câmara de tortura, insegura e perigosa mata - esse tolo, esse prisioneiro presa da ânsia e do desespero tornou-se o inventor da má consciência."(26)

Nietzsche escreve sobre o homem inventor da “má consciência”. No caso, é como se todos os instintos destruidores, criadores, ativos inerentes ao homem, pela falta de uso exterior, se voltassem para dentro do próprio homem, como um transbordamento de energia não utilizada no exterior. Com isso, ocorre o que o autor chama de uma "interiorização do homem". E é aqui que quero explorar melhor a questão da morte, ou do risco da morte, como algo necessário para Nietzsche. Da mesma forma que Sócrates fala no Fédon, o homem com a capacidade de filosofar, se vê como mais próximo da morte, que estaria ligada de forma inseparável à vida.
Especificamente na visão de Nietzsche, a infinidade de meios sociais criados para nos proteger da morte, acabou por deixar o homem num estado de interiorização, que me parece gerar mais e mais medo da morte: se você volta toda a sua atenção para o seu interior, qualquer mínima alteração interna afeta mais fortemente. Qualquer medo se torna maior e a idéia da morte como perda de si mesmo talvez pareça ainda mais tenebrosa. Quanto mais reforçamos as paredes e sistemas de segurança e de vigilância de um cofre, mais atenção damos ao que ele contém, e mais medo temos de perder seu conteúdo. Isso explicaria porque vivemos numa sociedade onde brota a "síndrome do pânico", que consiste, resumidamente, num medo fortíssimo e sem causa lógica. Não seria justamente uma necessidade do corpo, da nossa "grande razão", de ter algum medo, alguma sensação de risco em meio a tanta segurança? Pergunto-me se haverá algum estudo sobre a incidência dessa síndrome nos praticantes de bungee jumping ou de qualquer esporte que envolva um risco mortal. Talvez o grande problema seja que nos falta aceitar, filosoficamente, a morte. Assim como o envelhecimento. Queremos fazer plásticas para parecermos jovens, tomar remédios para não envelhecer, pagar plano de saúde para não morrer, etc. Os médicos mantêm vivas com aparelhos pessoas com cada vez mais idade, inconscientes, sem a capacidade de falar, de ouvir, de ver, de comer, de tocar... Para quê? Por quê? De qualquer forma, exploraremos a questão do homem contemporâneo no capítulo final deste trabalho.
Não há em Nietzsche uma resposta para algum tipo de vida coletiva diferente da nossa sociedade, baseada em cerceamentos individuais e busca de paz e segurança. Para ele, qualquer certeza, aliás, é uma vontade iludida de fazer sentido. Mas, pelo menos, sua filosofia nos faz repensar essa vontade de fixidez, de certezas absolutas. Epicuro também consegue esta proeza, tão necessária ao homem de nossa época.


CAP. 5 - O pensamento de Epicuro e Nietzsche na realidade contemporânea

Hoje, a indústria do medo alimenta o consumismo. O jornalismo, mantendo-se no padrão de sempre, reduzindo o mundo às catástrofes do dia, é um dos principais fortalecedores do medo na população. A violência, as desgraças, as falcatruas e os esportes para finalizar os telejornais, são apresentados como realidade, como se o mundo se resumisse a essa percepção distorcida que convence bilhões de pessoas diariamente. De que forma, na prática, isso alimenta o consumismo? Com medo, ficamos mais em casa. Em casa, para a população de mais alta renda (os que mais interessam para as vendas), com TV a cabo, videogames, entregas à domicílio, internet etc. Vendo o mundo por intermédio de telas, mas “protegidos”. E o que as telas nos mostram? Mais violência e tragédias, gerando um desejo de ainda mais proteção, para evitar essa parte sinistra, ruim da vida. A opção para se sair de casa com segurança nas grandes cidades acaba sendo só uma: shoppings centers – os templos do consumo, onde podemos comprar aquilo tudo que pensamos desejar. Esquecendo, assim, da sabedoria de Epicuro: o que realmente precisamos para a felicidade é simples e fácil de obter (“A riqueza exigida pela natureza é limitada e facilmente arranjada; aquela, pelo contrário, que ambicionamos possuir num tolo desejo, chega ao infinito.”(27) ). Isso graças à avalanche de propagandas com que somos bombardeados constante e ininterruptamente. O filósofo suíço Alain de Botton, em um de seus belos programas da série “Filosofia para o dia-a-dia”, coloca uma equipe de Marketing para fazer propagandas (ou seriam anti-propagandas?) com as ideias epicuristas. Achei marcante um outdoor que inventaram com uma bela casa à venda, com uma linda paisagem e todos os recursos da propaganda utilizáveis, porém, em letras pequenas, no canto da imagem, a frase: “Felicidade não incluída.”
Voltando ao tema do medo, ele gera uma vontade de certezas, de algo firme, que muitas vezes leva as pessoas a procurarem refúgios nas religiões e seus dogmas. Vivemos uma indústria de igrejas enriquecendo também com o medo de seus fiéis, no Brasil e em boa parte do mundo.
Epicuro desenvolveu sua filosofia contra o medo (e o consumismo que dele resulta). Sua filosofia produz um homem equilibrado, que usa a razão e é livre dos padrões das maiorias. Esse tipo de homem é cada vez mais raro em nosso tempo. Nietzsche criticou a passividade do homem, fundamentada na religião, e o esfacelamento da vontade no homem moderno. Por isso, penso ser tão importante retomarmos essas filosofias na contemporaneidade.

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Referências:

(1) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 2.
(2) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Heródoto, parágrafo 83.
(3) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 15.
(4) EPICURO, As luzes da ética. São Paulo: Moderna, 1998. Aforismos de Diógenes Laércio, máxima 27.
(5) NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Aforismo 45, p. 87.
(6) NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Aforismo 200, p. 86.
(7) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 12.
(8) DL, X, 37.
(9) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 16.
(10) NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Aforismo 276, ps. 187 e 188.
(11) NIETZSCHE, F. O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 10.
(12) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(13) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(14) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(15) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio, máxima 13.
(16) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 3.
(17) NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 31.
(18) NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 43.
(19) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio, máxima 2.
(20) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Heródoto, parágrafo 64.
(21) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Heródoto, parágrafo 66.
(22) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafos 4, 5 e 6.
(23) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(24) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio. Máxima 7.
(25) NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Aforismo341, p. 230.
(26) NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 73.
(27) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio. Máxima 15.

O Tempo em Santo Agostinho

Agostinho, em Confissões, trata do tema do tempo no livro 11. No capítulo 6, já desenvolve a questão do início. Se Deus criou a tudo, então Deus (e o verbo de Deus) seria anterior ao tempo: “Se foi, portanto, por meio de palavras soantes e transitórias que dissestes que fossem feitos o céu e a terra, e se assim os criastes, conclui-se que já antes do céu e da terra existia uma criatura material por cujas vibrações aquela voz pôde correr no tempo.”(1) Posteriormente, ele desenvolve mais a questão do verbo de Deus, que seria coeterno com Deus: “[...] é pronunciado por toda a eternidade e no qual tudo é pronunciado eternamente. Nunca se acaba o que estava sendo pronunciado nem se diz outra coisa para dar lugar a que tudo se possa dizer, mas tudo se diz simultânea e eternamente. Se assim não fosse, já haveria tempo e mudança e não verdadeira eternidade e verdadeira imortalidade.”(2) Assim, Agostinho coloca o verbo de Deus fora da esfera do tempo cronológico, além da sucessão de instantes mensuráveis que modernamente entendemos como tempo, na dimensão da eternidade. Cabe aqui lembrar que, na Grécia Antiga, havia três conceitos de tempo: o Chronos, que é o tempo cronológico como entendido na contemporaneidade, o Kairós, que seria o momento oportuno, o instante preciso para se agir (ou deixar de agir), e o Aion, que seria uma dimensão semelhante à descrita, um tempo sem início nem fim, que Heráclito de Éfeso descreveu como uma criança que joga dados consigo mesma em seu reinado lúdico. No capítulo 11, Agostinho destaca que nós, por vivermos na dimensão do tempo (cronológico) não podemos tentar medir a eternidade (imóvel, onde inexiste passado e futuro e tudo é presente). No capítulo 14, Agostinho separa mais claramente o conceito de Deus do de tempo: “Nenhum tempo Vos é coeterno porque Vós permaneceis imutável [...]” (3)

No capítulo 15, divide o tempo em três: presente, passado e futuro. Mas questiona a validade de usarmos a expressão “tempo longo” ou “tempo breve” quando nos referimos a passado (já não existe desde que passou) ou futuro (ainda não existe), ou mesmo para o tempo presente (que se reduz sempre ao instante): “Uma hora compõe-se de fugitivos instantes. Tudo o que dela debandou é passado. Tudo o que ainda resta é futuro. Se pudermos conceber um espaço de tempo que não seja susceptível de ser subdividido em tais partes, por mais pequeninas que sejam, só a este podemos chamar tempo presente.” (4)

No capítulo 16, vem a constatação de que, apesar dessa teoria, efetivamente podemos medir o tempo, comparando seus intervalos entre si, e dizemos que uns são mais longos (milênios, por exemplo) e outros mais breves (milésimos de segundo, por exemplo). Porém sendo impossível chegar a uma medida absoluta, da mesma forma que não podemos pensar matematicamente no maior número existente.

No capítulo 20, Agostinho diz que parece-lhe incorreto haver tempos futuros ou pretéritos, sendo imprópria a terminologia da divisão do tempo em três como explicitado anteriormente. O correto seria: “ [...] os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presentes das futuras.” O futuro, para ele, não pode ser previsto por não possuir existência. E o passado já acabou.

No capítulo 21, reapresenta a dificuldade: como se pode medir o tempo, se passado e futuro não existem, e se o instante ínfimo não é mensurável? Posteriormente ele refuta a tese de o tempo ser o movimento “do sol da lua e dos astros”. Seria o mesmo que supor que uma roda que girasse constantemente e parasse de girar, pararia o tempo. Hoje, com o avanço da Ciência, sabemos que se a terra parasse de girar, isso não afetaria o fluir tempo. Apenas altíssimas velocidades alteram a percepção do tempo, segundo a teoria da relatividade.

Nota-se, então, que o problema fica em aberto, como toda boa questão filosófica, mas o simples fato de se entender o problema já abre nossa percepção para algo que poderia ser visto inicialmente, superficialmente, como banal. Como o tempo mensurável, com a precisão e imediatidade dos relógios...


Referências:
1- Cf. livro XI, p. 272
2- Cf. livro XI, p. 273
3- Cf. livro XI, p. 278
4- Cf. livro XI, p. 280



Bibliografia:

AGOSTINHO, S. Confissões. 18a. Edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.


(Fabio Rocha) 2009

Ceticismo

Através da História, a liberdade do pensamento foi o que propiciou o surgimento e posterior desenvolvimento do Ceticismo. Isto porque em sociedades pluralistas e com diferentes culturas e formas de pensar distintas convivendo, naturalmente surge o pensamento mais questionador. Ao se deparar com tantas “verdades” distintas, naturalmente se questiona: “Qual é a mais certa?” Ou “Existe uma verdade única?” Os céticos tendem a rejeitar sociedades ou instituições onde uma única forma de pensar é imposta a todos dogmaticamente, sem espaço para a reflexão crítica.

Sua origem remonta a Pirro, contemporâneo de Aristóteles, que viveu no século IV a. C. Desde então, o que se chamou de ceticismo variou muito ao longo da história.

O ceticismo é uma forma particular de filosofia, pois não tem como base um conjunto de teses sobre algo. Nem pretende ser um conhecimento. A grande característica do cético é manter uma “atitude crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto a verdade.” (1) Por isso o ceticismo nunca deixa de ser atual.

A filosofia se caracteriza por ser uma investigação racional, com o objetivo de estabelecer a verdade de algumas teses e a falsidade de outras através de argumentos racionais e imparciais. Porém, os filósofos ditos “dogmáticos” não cumprem tal característica, já que tendem a não reconhecer qualquer argumento contra as suas teses. E mais: “De maneira precipitada e parcial, aceitaram teses questionáveis.” (2)

A exigência filosófica de argumentos rigorosos e imparciais é veementemente cumprida pelos céticos, que a elevam a um outro nível. Ao examinarem cuidadosamente todos os argumentos envolvidos em um problema, a favor ou contra qualquer tese, se tornaram excelentes argumentadores. “Uma investigação madura costuma mostrar-lhes que a qualquer tese filosófica se pode opor uma outra tese filosófica, de igual força persuasiva e contrária à primeira, de modo que não haveria como aceitar nenhuma das duas.”(3) Aí está a suspensão do juízo, característica do ceticismo.

Os céticos não nos trazem um pretenso conhecimento verdadeiro sobre as coisas, mas um discurso e um método complexo que nos faz questionar o que achamos saber. Organizaram várias formas de argumentação contra qualquer dogmatismo e mostrar que não se chegou ainda à verdade. Assim, mostram que não há nenhuma garantia de que conhecemos o que pensamos ou alegamos conhecer. Segundo eles: “Não sabemos nada, não temos certeza de nada e podemos colocar tudo em dúvida; sequer sabemos que nada sabemos” (4). Assim, nem Sócrates, ao afirmar que nada sabia pode ser considerado um cético, pois saber que nada sabe já é saber algo.

Graças a seu caráter crítico poderoso, e com uma metodologia coerente, o desafio cético mantêm-se até mesmo hoje como um obstáculo inevitável para qualquer tipo de filosofia que pretenda assegurar a verdade de suas teses. Ao mesmo tempo, refutar o ceticismo e suas teorias acabou por se tornar uma obsessão para os filósofos dogmáticos, “sobretudo daqueles que se interessam pela teoria do conhecimento, já que a possibilidade do conhecimento e a descoberta da verdade é um assunto essencial para todos os céticos.” (5)

Pode se dizer que uma pessoa sabe algo quando cumpre três condições:
1 – ela crê no que diz (ou pensa);
2 – sua crença tem que ser verdadeira;
3 – ela precisa justificar de modo adequado sua crença.
Assim, o conhecimento é definido como uma crença verdadeira justificada. O cético questiona as condições 2 e 3, ao perguntar se nossas crenças não poderiam ser falsas, mesmo que pensássemos o oposto. Além disso, mesmo se fossem verdadeiras, não poderiam ser justificadas.

O ceticismo nos faz examinar melhor como conhecemos (ou pensamos conhecer) a realidade. A percepção sensível é a base de como apreendemos o mundo, através dos cinco sentidos. Mas há uma grande diferença entre a causa do processo (um objeto exterior a nós) e o efeito produzido em nós (uma percepção). Este processo está sujeito a excessivas variações e deformações entre o que o objeto é e como o sentimos. Por exemplo, pelos sentidos, podemos achar que o sol tem o diâmetro de uma bola de basquete... Assim, o efeito final do processo pode ser muito diferente da causa inicial (o objeto em si). “Os sentidos têm um valor prático inestimável, mas nenhum valor cognitivo.” (6)

Outro argumento utilizado pelos céticos tem como base a variação das sensações. Como nossas sensações mudam e o objeto permanece o mesmo, nem todas podem ser verdadeiras. Podemos pensar que uma mesa branca é azul, por estar com uma luz azul sobre ela, por exemplo.

Outra hipótese cética é desenvolvida no filme Matrix, onde podemos pensar, pelas sensações, estar vivendo, enquanto, na verdade, estamos apenas presos numa espécie de casulo, com computadores ligados ao nosso cérebro nos transmitindo falsas sensações. Outra hipótese é a do sonho: após um sonho muito realista, não distinguimos bem se estamos acordados ou dormindo. E, durante ele, tudo parece real. Todas essas hipóteses servem para nos mostrar que talvez não saibamos o que pensamos saber, e que o mundo pode ser bem diferente do que nos parece.

Acho válido destacar que o ceticismo não é um ataque ao conhecimento e às crenças comuns da maioria das pessoas. Para os céticos, são os filósofos dogmáticos que atacam primeiramente nosso saber comum e nossas crenças banais. “Os dogmáticos recusam que sabemos o que cremos saber, porque eles tem em mente uma concepção muito forte de conhecimento e porque eles exigem uma justificação que garanta a verdade das crenças. [...] Os céticos antigos, em sua polêmica com os dogmáticos, apenas exploraram a concepção de realidade e conhecimento, fazendo essa voltar-se contra os próprios dogmáticos.” Assim, o ceticismo é uma defesa da vida cotidiana, ao preservá-la dos ataques dos dogmáticos.

Referências:
1- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 8
2- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 8
3- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 8
4- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 9
5- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 9
6- SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. p. 13



Bibliografia:

SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.


(Fabio Rocha) 2009

O masculino e o feminino como forças da natureza

O masculino e o feminino como forças da natureza - Fabio Rocha

Hoje, quando falamos em tragédia ou acontecimento trágico, não usamos o sentido filosófico do trágico, que Nietzsche percebeu na tragédia grega. Para ele, a tragédia era a forma de arte mais elevada, pois nela o sentido do termo "trágico" era uma afirmação da realidade, fosse ela qual fosse. Em seu primeiro livro, de 1872, "O nascimento da tragédia", Nietzsche explica a tragédia grega surgindo da união de dois instintos artísticos opostos que se manifestam na própria natureza (e não apenas nos homens): o apolíneo e o dionisíaco. Apolo é o deus da ordem, da precisão, da razão, da luz, da medida, da forma e da ordem. Dioniso é seu oposto e rival: ligado ao dilaceramento, à imprecisão, à escuridão, ao mistério, ao sonho, à embriaguez, ao êxtase, à perda de limites, à dissolução do individual e comunhão com a natureza. As festas para este deus eram onde se perdia totalmente os limites, num terror dionisíaco (para os romanos o deus tinha ouro nome: Baco - daí surgindo o termo "bacanal" para estas celebrações). A tragédia, na teoria desenvolvida por Nietzsche, era a arte mais elevada pois conseguia mostrar o dionisíaco em harmonia com o apolíneo. Não mais uma festa caótica de embriaguez, nem o que viria a se tornar o teatro - sem música nem participação do público no espetáculo. Mas o que quero destacar nesse trabalho é que essas forças opostas e complementares, para Nietzsche, estão em tudo, pois surgem da própria natureza. E de sua eterna batalha nasce a harmonia, como já falava Heráclito, filósofo pré-Socrático, há mais de cinco mil anos trás: "o contrário em tensão é convergente; da divergência dos contrários, a mais bela harmonia." (fragmento 8) Aqui podemos explorar melhor o tema do semestre. Sendo forças gerais, de toda a natureza, será que podemos pensar também o apolíneo como masculino e o dionisíaco como feminino? Não há consenso na filosofia sobre isso. Aceitando tal hipótese, e indo mais além: será que estes impulsos dividem-se ao formar homens e mulheres ou misturam-se em cada homem e em cada mulher? A história mais recente das relações humanas parece ter mostrado uma mudança no papel do homem e da mulher em que cada vez mais o indivíduo parece poder mostrar socialmente que traz em si as duas forças e reprimir cada vez menos uma delas). O homem-machão-provedor-insensível-do-mundo e mulher-emotiva-passiva-de-casa parecem cada vez menos reais. Será que está nascendo em cada indivíduo a bela harmonia de que Heráclito falava? Jung achava que sim. E, resumidamente, nisso consistia a sua teoria da individuação: que cada indivíduo, ao longo de sua vida, tenderia a equilibrar seu masculino e seu feminino, assim como qualquer força oposta desequilibrada. Ele ia além e falava que a própria sociedade também tenderia a esse equilíbrio. E é o que parece realmente estar acontecendo. Ele falava de um ponto chave na vida do indivíduo: os 50 anos. Se alguém levasse uma vida com muita tendência para um dos lados, após esta idade, tenderia a ir para o outro, para compensar. A carreira do ator e diretor Clint Eastwood parece confirmar essa teoria. Até os 50, fez filmes extremamente "masculinos", de faroeste, violência, ação. E, ao passar este marco, fez e dirigiu filmes muito mais sensíveis, iniciando com o belo "As pontes de Madison" (The Bridges of Madison County, 1995). Fabio Rocha (trabalho publicado em http://spag-rj.blogspot.com )

AFINAL, O QUE É ARTE?

AFINAL, O QUE É ARTE?


FABIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA


RIO DE JANEIRO
Maio/2008



Weitz [1] parte da teoria de Wittgenstein de que a lógica dos conceitos empíricos não permitiria uma definição dos mesmos, devido à inovação ser algo inerente a eles, aplicando-os na arte. Assim, basicamente, definir, de modo fixo, o que é arte seria algo impossível, sendo ela mutável. Mas Arthur C. Danto (filósofo e crítico de arte), não se contenta com essa adaptação e insiste em trabalhar melhor na investigação de uma definição da arte. Esse estudo é que acompanharemos aqui.

Com o surgimento da fotografia no século XIX, a arte como imitação da natureza começa a perder o sentido. É nesta época que surge o impressionismo, na França, que teve como alguns expoentes Monet, Renoir e Manet.

“Os autores impressionistas não mais se preocupavam com os preceitos do Realismo ou da academia. A busca pelos elementos fundamentais de cada arte levou os pintores impressionistas a pesquisar a produção pictórica não mais interessados em temáticas nobres ou no retrato fiel da realidade, mas em ver o quadro como obra em si mesma. A luz e o movimento utilizando pinceladas soltas tornam-se o principal elemento da pintura, sendo que geralmente as telas eram pintadas ao ar livre para que o pintor pudesse capturar melhor as nuances da natureza. [...] Essa orientação viria dar mais tarde origem ao pontilhismo. As cores e tonalidades não devem ser obtidas pela mistura das tintas na paleta do pintor. Pelo contrário, devem ser puras e dissociadas no quadro em pequenas pinceladas. É o observador que, ao admirar a pintura, combina as várias cores, obtendo o resultado final. A mistura deixa, portanto, de ser técnica para se tornar óptica.” [2].

Assim, a pintura acaba sendo decomposta e deixa e ter como alto critério de valor a sua semelhança com a realidade, como era desde a Grécia antiga até o Romantismo.

A arte como espelho da realidade, aliás, é um tema trabalhado por Danto no primeiro capítulo do “A transfiguração do lugar-comum”, ao comparar os pensamentos contrários de Platão e Shakespeare sobre arte como imitação do real. Para Platão, o espelho da arte, seu caráter mimético, estaria no nível mais baixo da escala ontológica:

1º lugar - coisas em-si;
2º lugar - objetos percebidos pelos sentidos;
3º lugar - objetos de arte como pura imitação de (2).

Para Danto, Platão parece se incomodar com a utilidade de uma arte preocupada somente com uma melhor imitação da realidade já na Grécia de seu tempo: “Sócrates talvez estivesse sugerindo que a mimese perfeita era afinal o grande objetivo dos artistas [...] então, se era só isso que se almejava – fazer uma cópia exata –, seria bem mais fácil obtê-la não pelos métodos usuais de educação artística, mas pelo simples estratagema de colocar um espelho voltado pra o mundo [...]” [3] Ou seja, se o que se busca na arte é uma imitação cada vez mais exata do real, por que não usar logo um espelho voltado para o mundo ao invés de criar um objeto de arte?

Trazendo a discussão para a realidade atual, podemos nos questionar sobre as formas de arte padronizadas como as novelas (se é que podemos chamá-las de arte), muito preocupadas com a identificação com o público e seus índices de audiência, o que acarreta uma produção com cada vez menos inovações e riscos e cada vez mais lugares-comuns, simplificações e estereótipos. Será que podemos dizer que isso causa um efeito de “educação” do público contra mudanças e outras perspectivas de se enxergar a realidade em suas próprias vidas? Talvez sim, já que o processo de espelhamento parece mútuo nesse caso: a cultura do espectador se forma (também) com o que ele vê na novela e as novelas são feitas cada vez mais preocupadas com o número de espectadores que as vêem (em algumas, se chega a mudar a história se os espectadores não estiverem gostando...). Um ciclo infinito de estagnação não criativa, onde a preocupação extremada com a audiência (e o lucro econômico das emissoras de TV) acaba por manter a própria realidade dentro dos mesmos padrões. O cinema estadunidense, com seus recordes de bilheteria, com foco demasiadamente voltado para a ação, uma trama básica, algum romance socialmente aceito e um "Happy End" para encerrar, talvez esteja no mesmo caso. Nietzsche, já no seu primeiro livro, "O Nascimento da Tragédia", diz: "De onde viria ao artista a obrigação de acomodar-se a um poder cuja força reside apenas no número?" (aforismo 11). E esse efeito também pode ser pensado no jornalismo atual e no poder de sua influência na manutenção dos nossos padrões de comportamento, mas aí já estaríamos totalmente fora da questão do que é arte...

Voltando ao tema deste trabalho, a parte positiva da arte como espelho parece ter escapado a Platão: qual instrumento é melhor para percebermos a nós mesmos? Shakespeare, em seu Hamlet, é utilizado por Danto como o pólo oposto dessa visão negativa de Platão. A identificação com uma obra de arte pode trazer autoconhecimento. Quantos poemas, por exemplo, nos surpreendem por conseguir colocar em palavras um pensamento, sentimento ou sensação que sempre tivemos, mas não conseguimos entender ou expressar tão bem como em seus versos? Quando ocorre esse fenômeno estético (que diz respeito não à obra de arte, mas à sensibilidade da pessoa frente à obra) de identificação, não passamos a nos conhecer melhor? Além desse aspecto, o espelho pode nos fazer ver a nós mesmos também como objetos do mundo, abre a possibilidade de sermos percebidos, e não apenas de perceber. Assim é que o rei assassino (Cláudio) se vê na peça montada por Hamlet. Mas pode ocorrer também uma identificação pelo oposto. Citando o texto de Danto: “Qualquer pessoa pode ser ver refletida numa obra de arte e descobrir algo sobre si mesma [...] Uma mulher libertina poderia ver sua degradação numa pintura da Virgem Maria.” [4]

Assim, a imitação do real na arte pode ser vista em seus aspectos positivos e negativos, mas não parece ser critério para classificar o que seria ou não arte.

Após o impressionismo, o Cubismo realizou o rompimento definitivo com o espaço do renascimento, “a decomposição da figura colocou em evidência o plano, como a verdade do espaço plástico moderno.” [5] A partir desse ponto, podemos falar de outra importante ruptura com a forma mais usual de se fazer arte, que acaba por dar mais material para Danto tentar desenvolver sua definição de arte. Trata-se da arte conceitual, que teve como precursor Marcel Duchamp. Em 1917, com o pseudônimo de “R. Mutt”, Duchamp enviou para o Salão da Associação de Artistas Independentes um urinol de louça, usado em sanitários masculinos, com o título de “Fonte”. Não era a primeira apropriação e deslocamento de objetos pré-fabricados para o meio de arte: em 1913, Duchamp já usara um banco de cozinha onde parafusou, no assento, uma roda de bicicleta. Mas o urinol foi o primeiro objeto deste tipo enviado para uma exposição. Com isso, Duchamp criou a arte conceitual, fazendo o mundo se perguntar sobre o que é arte.

Nos anos 50, quando os Estados Unidos passam a ser o centro cultural ocidental no lugar da França, o estadunidense Andy Warhol inaugura a pop art. No seu projeto Brillo Box, ele expõe um objeto como sendo de arte, inteiramente igual a uma caixa de sabão em pó que poderia ser comprada em qualquer supermercado. Com isso, podemos tratar de dois fenômenos de que fala Danto: o fim da arte e o princípio dos indiscerníveis.

Sobre o fim da arte, diz o próprio Danto em entrevista: “... meu pensamento é que o fim da arte consiste no surgimento na consciência da verdadeira natureza filosófica da arte” [6]. E essa natureza filosófica da arte só pode ser notada a partir da arte conceitual, com o fim dos critérios meramente visuais para discernir o que é ou o que não é arte (no caso da Brillo Box, por exemplo, não haveria diferença visual na caixa em um supermercado da caixa em exposição). Assim, a análise de uma obra de arte, para Danto, deve levar em conta algo externo à obra e, talvez, mais importante que ela própria: sua relação com o mundo (contexto cultural, histórico, social etc.). Além disso, a obra traz consigo significados incorporados dentro do mundo da própria arte (que leva em conta a teoria e a história da arte), indo além do seu mero conteúdo e meio de apresentação.

O princípio dos indiscerníveis de Leibniz diz que se duas coisas são idênticas, nenhuma característica de uma não existe na outra. Assim, se considerarmos que na identidade de um sabão em pó comum com a Brillo Box, há significados incorporados à Brillo Box que não acharemos como características no sabão em pó, eles são apenas aparentemente idênticos. As obras de arte conceituais sempre se diferirão dos meros objetos justamente por trazerem consigo algo a mais que os objetos: o conceito. Jorge Luis Borges trata deste tema em seu texto “Pierre Menard, autor do Quixote”, onde um escritor tenta e consegue reescrever de forma exatamente idêntica (com as mesmas palavras) o Dom Quixote de Cervantes, mas as diferentes condições de suas épocas distintas ao escrever acabam por mostrar que não são duas obras idênticas, mas apenas aparentemente idênticas.

Há, assim, uma diferença ontológica entre obra de arte e coisa (objeto físico), mais perceptível com as inovações da arte conceitual. As coisas simplesmente são, enquanto as obras de arte sempre trazem consigo um conteúdo simbólico, remetendo a algo fora delas mesmas. Para Danto, a obra de arte é sempre interpretada e tem conteúdo (mesmo que o conteúdo seja a sua presença na história da arte). Mas esse conteúdo interpretável da arte não necessariamente deve ser uma comparação com o real (como era o costume antes do impressionismo) ou uma tentativa de adivinhar a intenção expressiva do autor (como muito se tenta fazer até hoje em dia).

Percebemos, assim, a complexidade e dificuldade em se estabelecer uma definição definitiva e completa da arte. Mas Danto, se utilizando da própria história da arte, parece ter feito um belo trabalho filosófico. É interessante notar a aproximação da filosofia com a arte, e o poder de transformação pessoal que ambas possuem. O próprio Danto parou de produzir arte para se voltar apenas para a Filosofia, impactado pela Brillo Box, como conta nessa entrevista: “Eu parei de fazer arte por volta de 1964, quando vi a exposição de Warhol. Foi uma espécie de descoberta sobre mim mesmo ocorrida em algum momento de 1962. Eu passei a achar mais interessante dedicar-me à filosofia do que fazer arte. Eu estava trabalhando em uma gravura quando esse pensamento me ocorreu, e me lembro de dizer a mim mesmo: “se essa é a maneira como você se sente, então é melhor parar”. Assim, na verdade, eu parei e desmanchei meu estúdio e, desde aquele dia, não desenhei sequer uma linha.”. [7]


--- Notas de rodapé ---

1 - Weitz, M. 1957. O papel da teoria em estética. The Journal of Aesthetics and Art Criticism, 15.I, pp. 27-35.

2 - Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Impressionismo

3 - DANTO, A. A transfiguração do lugar-comum – uma filosofia da arte. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 2006. p. 43

4 - DANTO, A. A transfiguração do lugar-comum – uma filosofia da arte. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 2006. p. 46

5 - Fonte: http://www.vivercidades.org.br/publique222/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1253&sid=22&tpl=printerview


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DANTO, A. A transfiguração do lugar-comum – uma filosofia da arte. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 2006.
_________. O mundo da arte. Arte e Filosofia. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto / Tessitura, 2006.


(Fabio Rocha)

NIETZSCHE E A NECESSIDADE DE IDOLATRIA HUMANA

“Quanto a mim, os autores de que gosto, eu os utilizo. O único sinal de reconhecimento que se pode ter com um pensamento como o pensamento de Nietzsche é precisamente utilizá-lo, deformá-lo, fazê-lo ranger, gritar. Que os comentadores digam se é ou não fiel, isto não tem o menor interesse.”

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.


Do mesmo modo que o “homem de ação” nietzschiano, criador do grandioso no momento presente, pegou a tocha dos grandes homens do passado, sua obra será a tocha a encorajar os homens do futuro. Pois se foi possível a grandeza no passado, “será, algum dia possível novamente”. Aliás, não seria essa também a parte boa da história da Filosofia?

Esta fé em si mesmo como ativo, como parte do mundo, capaz de criticar, analisar e transformar o presente, é essencial no momento em que vivemos, egoístas sem visão do todo, treinados para sermos passivos, uniformes e não criadores desde a pré-escola, passando pelo dogmatismo das igrejas e culminando com trabalhos sem beleza, prazer nem criatividade, que têm como fim último o salário para a sobrevivência. Aceitamos tudo que nos é dado com um conformismo crescente e uma alienação protuberante!
Hoje, a globalização e o neoliberalismo são ótimos exemplos de processos internacionais que facilmente convenceram a quase totalidade da raça humana de sua irreversibilidade. Sem falar na idolatria do cientificismo, de que Nietzsche fala na passagem:

“Defendo-me contra toda tartufaria de cientificidade:
1 – em relação à exposição, quando ela não corresponde à gênese dos pensamentos
2 – nas reivindicações de métodos, que talvez não sejam absolutamente possíveis durante um determinado tempo da ciência
3 – nas reivindicações de objetividade, de fria ausência de personalidade, nas quais, como em todas as valorações, contamos com duas palavras sobre nós e nossas vivências interiores” 1


No aforismo 125 da Gaia Ciência, talvez fique explicada melhor essa necessidade de idolatria que o homem traz consigo ainda hoje, considerando-se que vivemos a época da “morte de Deus”. Esse aforismo trata do homem “toll”, que pode ser traduzido como homem louco ou desvairado. Ele está, em plena manhã, procurando Deus com uma lanterna: clara paródia à cena de “Diógenes, o cínico”, que buscava, também com uma lanterna no meio da luz do dia, um homem no meio dos homens (um homem com base no modelo grego, um herói, um homem mais próximo dos Deuses). Já na paródia nietzschiana, o homem busca a Deus. O local dessa busca é a agora, o coração da cidade, onde costumavam se reunir filósofos na Grécia, palco das grandes decisões sobre os destinos da cidade e do mundo. E ali se encontravam “muitos daqueles que não criam em Deus”. Ou seja, na paródia de Nietzsche, a busca por Deus é feita justamente no espaço dos filósofos, sendo muitos deles ateus. Mas o ateu, como negador de Deus, permaneceu preso a Deus para Nietzsche, do mesmo modo que o escravo liberto vive da medida da prisão onde estava antes de ser livre. A negação precisa sempre, primeiramente, que haja um Deus, para poder negá-lo. A partir daí, Nietzsche começa a falar da morte de Deus, que seria uma reintegração do plano supra-sensível no plano sensível, e não uma negação do supra-sensível, como no ateísmo. O assassinato de Deus seria uma supressão da dicotomia entre supra-sensível (Deus. Ser, imperecibilidade etc.) e sensível (sensação, devir, aparência, perecibilidade, composição etc.). A idéia de um Deus assassinável mostra-nos um pensamento já fora da concepção cristã de Deus criador do todo a partir do nada. Assim sendo, para Nietzsche, teria que haver uma origem ontologicamente anterior a Deus. Seria a vontade de poder.2 Assim, o Deus assassinável teria que ter sido também criado. A idéia de Deus seria humana, criada por um certo tipo de homem que, não suportando o devir, divide e separa o plano supra-sensível do plano sensível (metafísica cristã) e passa a tentar achar um acesso (impossível) ao supra-sensível. O sensível, o devir, a sensação, o corpo são desvalorizados nesse esquema e o supra-sensível acaba por se tornar, no cristianismo, acessível para a alma como paraíso, depois da morte do corpo, do mesmo modo que qualquer pensamento metafísico. Esse esquema apresenta desde seu início uma incapacidade de trazer consigo, sem tentar excluir, o plano sensível. A conseqüência natural disso, desse Deus assim criado, é a morte de Deus, como esgotamento do pensamento metafísico. Isso porque, para Nietzsche, a vida incessantemente suprime perspectivas separadas imóveis, trazendo-as para um combate automático entre si. A morte de Deus é, então, o fim da dicotomia, a integração entre os planos, reduzindo a totalidade a esse lugar, esse aqui e agora. É a partir do aqui que Nietzsche propõe o seu pensar. Mas a experiência da morte de Deus que vivemos também é aterrorizante: quando o homem louco do fragmento afirma que “nós o matamos”, usa de elementos poéticos para mostrar esse terror. “Beber o mar” remete-nos ao vazio da experiência quando o supra-sensível se dissolve: o que é a vida se não há nada além dela? Nenhum paraíso para a alma ou metafísica que tudo abarque e explique... “Apagar o horizonte” é a supressão de qualquer limite e de qualquer meta fixa. “Desatar a terra do sol” é a perda da visibilidade que a luz do sol proporciona, trazendo total indistinção. Este é o terror da queda desorientada e cega que a morte de Deus proporciona. Um devir incessante, absolutizado. Este terror lembra um pouco o terror dionisíaco da existência de outra obra de Nietzsche, “O nascimento da tragédia”, apesar das diferenças consideráveis entre as duas obras. Nela Nietzsche trabalha com uma justificação estética do existir, onde o Apolíneo redime o Dionisíaco e a vida faz sentido como obra de arte. Schopenhauer, aliás, também considera a arte (a contemplação estética) como um modo de se escapar da dor de se existir, condicionado ao will to life (o único outro modo, para ele, seria a negação de todo querer de algumas das filosofias budistas e bramanistas). Mas, voltando ao fragmento 125 da Gaia Ciência, após afirmar que nós próprios assassinamos Deus (o que não poderia ser diferente, aliás, já que nós os criamos ao dividir e separar os dois planos por não suportar o devir), Nietzsche diz: “O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob nossos punhais”. Ele mostra, assim, a força do pensamento metafísico, e passa a tratar da dificuldade natural nossa em aceitar que o matamos. Ele fala de limpar a mão do sangue de Deus com jogos sagrados, mostrando a necessidade humana de re-divinizar algo, para poder adorá-lo. A reconquista do sagrado para o profano. Fala também de “festejos de expiação”, o que nos lembra os festejos dionisíacos (também tratados no Nascimento da Tragédia), onde a desordem, a dor e a absolutização são superados com a integração com o apolíneo. Expiação indica também que ainda temos culpa. E, se há culpa, ainda há dificuldade em aceitar a morte de Deus. Sobre isso, Nietzsche complementa: “A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?” O que seria esse tornar-se Deus? No aforismo 143, também da Gaia Ciência, em que elogia o politeísmo, podemos encontrar algumas respostas. Não parece ser uma idolatria de si mesmo ou uma vingança, mas sim ter (e suportar ter) um ideal próprio, leis e direitos próprios, sem ter que adorar ou seguir algo externo. A base para essa soberania do indivíduo foi o politeísmo, segundo Nietzsche, pois a pluralidade de deuses trazia uma pluralidade de normas enquanto o monoteísmo traz consigo um só padrão de normalidade estagnada. O aforismo 125 termina com o homem louco com a lanterna na praça procurando Deus percebendo que chegou “cedo demais”. É como se Nietzsche percebesse que, mesmo tendo o homem efetivamente matado Deus, ele ainda não suporta não ter o que adorar. Ainda precisa das igrejas como “mausoléus e túmulos de Deus”.

Outro aspecto histórico a ser pensado como uma das possíveis causas do que vivemos na contemporaneidade, é o que Georg Simmel, enfoca em seu “O Fenômeno Urbano”: a passagem da vida no campo para as grandes metrópoles criou um modo de vida com tantos estímulos e com um ritmo de vida tão acelerado que o metropolitano, como defesa, tende a reagir menos emocionalmente e mais com a inteligência ou a quase não reagir (que ele chama de atitude blasé). Esse cenário de passividade, frieza e distância, quando comparamos com o modo de vida no campo, viria junto com a presença massificante do dinheiro, como medida de todas as coisas. Tudo perde o encanto, a “cor”, o caráter único, para se tornar um preço, para Simmel. Até mesmo os relacionamentos pessoais são afetados por esta lógica monetária.

Tudo isto lembra a passagem incrivelmente atual de Nietzsche:

“[...] Enquadrar-se, viver como vive o ‘homem comum’, achar correto e bom o que ele acha correto: isso é a submissão ao instinto de rebanho. Há que se levar sua coragem e o seu rigor longe o bastante para sentir como uma vergonha tal submissão. [...]” 3


--- Notas de Rodapé ---

1 NIETZSCHE, F. Vontade de Poder, aforismo 424.

2 A vontade de poder não seria algo transcendente ou imanente, mas o que compõe a realidade. É o resultado do embate entre perspectivas, que nasce a cada instante e onde o devir traz novos elementos que podem ser incorporados ou não (nesse último caso, enfraquecendo a vontade de poder). Deus era, assim, uma perspectiva unificadora, sintetizadora, pois permitia a percepção da existência como um todo. Porém, nunca pode absorver o devir, o que se mostrou na cisão supra-sensível / sensível. A metafísica produziu, assim, essa dicotomia, valorizando o supra-sensível e utilizando-o como medida para se pensar o sensível (vontade de tornar pensável todo ente, de reduzir a totalidade à pensabilidade). O colapso desse sistema por si mesmo seria a morte de Deus. A vontade de poder também seria uma perspectiva, porém mais forte, por conseguir integrar e colocar todas as outras perspectivas sob seu domínio.

3 NIETZSCHE, F. A Vontade de Poder. Aforismo 458.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômano. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
BACHELARD, G. O ar e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
_____________. Assim falou zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
_____________. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Hemus Editora, 1984.
_____________. Humano, demasiado humano. São Paulo: Rideel, 2004.
_____________. Nietzsche. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
_____________. O livro do filósofo. São Paulo: Centauro, 2004.
_____________. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
_____________. Segunda consideração intempestiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1983.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. São Paulo: UNESP, 2005.



(Fabio Rocha)

A FILOSOFIA MEDIEVAL E A MORAL CRISTÃ

"O homem correto age pela lei interna, e não por mandamentos externos. Bebe as águas da Fonte, e não dos canais." – Lao Tse (Aforismos e trechos do Tao Te King)


Na Idade Média, o pensamento filosófico se tornou dependente da teologia. É nessa época que o Cristianismo se torna a religião oficial do império Romano e começa a se buscar fundamentos filosóficos para essa religião na Grécia Antiga.

Da Filosofia imanente do Estoicismo, de sua lei ética que tem como base a busca da felicidade, de sua negação da metafísica e de qualquer possibilidade de transcendência, os medievais extraem o conceito de NATUREZA como lei eterna, transformando-a em DEUS, criador de tudo. É nessa época que nasce também o conceito de pessoa, retirado do Evangelho.

Os neo-platônicos afirmavam que “Tudo emana do uno e tudo retorna ao uno.” (Plotino), o que pode ser interpretado como uma visão de toda a realidade como divina. Os cristãos não podem aceitar essa teoria, pois o mal seria também divino, e a idéia da criação divina cristã a partir do nada também seria divergente. Porém o modelo neo-platônico de Uno (Logos, fonte de emanação) / Inteligência (Nous) / Alma do Mundo (Psyché) formando um mundo superior, eterno e originário, separado do nosso mundo “Sub-Lunar” (humano, animal, vegetal, mineral), regido pelo tempo cronológico, pela finitude, imperfeição e composição de elementos, servirá de base para o Cristianismo.

Santo Agostinho, como os neo-platônicos, é pré-medieval. Ele é o fundador filosófico do cristianismo com arcabouço platônico. Sua ética terá como base o amor. Tudo poderia ser feito se tivesse como base o amor. A partir daqui é que pretendo me aprofundar na lei e moralidade cristã, com a intenção de destacar como a filosofia cristã, que teve como base a filosofia não-normativa grega (Platão, Aristóteles etc.) e seus primeiros passos morais com a liberdade total do amor em Santo Agostinho se tornou o que temos hoje.

Os gregos ligavam o bem ao belo, à justa medida. Uma ação nobre, considerada boa, bela e justa, poderia ser matar um inimigo em batalha, por exemplo. Nisso consistia uma moral não-normativa: cada ação não teria nela mesma algo de bom ou ruim, dependendo sempre da situação. Não havia uma norma geral, como no Cristianismo há o “Não matarás”. Mas tentemos analisar essa mudança radical desde suas origens.

Os moralistas cristãos procuraram primeiramente vincular o valor moral ao ato voluntário, que seria sua base. Reuniram os conceitos de beleza e honra numa noção mais abrangente, a de bem. Vincularam o bem a um princípio transcendente – a alma, que ganha importância em relação à pura virtude 1. Assim, a virtude nela mesma não é mais o bem supremo que era para os gregos, tendo importância agora apenas por conduzir o homem para Deus.

A partir daqui, podemos analisar melhor o surgimento da noção de pecado, que seria, antes de mais nada, um ato vicioso. E o vício é o oposto da virtude. Para Aristóteles, a virtude é um hábito, uma disposição adquirida e duradoura, que permite àquele que a possui agir em conformidade com a sua própria natureza. Assim, o agir moralmente bem teve como base helênica o agir espontaneamente conforme sua própria natureza. O pecado é, então, um ato contrário à natureza de quem o comete, é mau, é o resultado de um vício (contrário da virtude como perfeição). Assim, a base Aristotélica é mantida por São Tomás de Aquino.

Mas o que seria a natureza? Sendo a razão o que confere a nossa natureza seu caráter humano, a virtude e o bem moral que se harmonizem com nossa natureza devem se harmonizar, necessariamente, com nossa razão. Assim, o mal moral, o pecado e o vício passam a poder ser concebidos como falta de racionalidade no ato ou no costume. Tal como formulou Cícero, em sua definição de moralidade: “O costume de agir de acordo com o que querem a razão e a natureza”. 2

Essa definição parece insuficiente para um cristão, já que não fala de Deus nem das relações entre vontade humana e divina. Por isso, padres e teólogos da Idade Média usavam frequentemente definições mais “cristãs”, como a de Santo Agostinho: “Pecar é falar, agir ou desejar contra a lei eterna.” 3 Estando a lei divina acima da natureza, definir o pecado em oposição à lei divina parece fazer mais sentido realmente para um cristão. A razão seria obra de Deus e a infração das prescrições da razão seria como a infração das prescrições divinas.

O pecado é para um filósofo uma desobediência à razão, enquanto é para um teólogo uma desobediência a Deus. Mas na Idade Média, essas duas instâncias se confundem. Parece-me ser justamente nesse ponto que começa a nascer uma moral normativa, diferente da grega. Pois a razão humana, para poder servir de padrão moral na prática da vida cristã, precisa ser “informada” pela lei divina.

Para Aristóteles, o homem mau é apenas um ignorante. Todo mal nasceria de um erro de juízo. O bem, ao contrário, se liga a sucesso, a bem fazer, a fazer de modo belo e consciente. A virtude, esse bem fazer, é a condição de se levar uma vida feliz. A moral cabe ao homem: Deus não está interessado nela.

Já no platonismo, há mais semelhança com o cristianismo, pois existe uma ordem divina que domina a ordem da moralidade e a define: Saturno, constatando a incapacidade humana de governar com a autoridade conveniente, teria submetido as cidades a inteligências mais divinas que as nossas, criando os Daimons, que seriam guias divinos que carregamos conosco, a parte imortal do nosso ser. Mas é uma semelhança tênue, pois o universo de Platão está inteiramente impregnado de inteligibilidade. Há vários Deuses organizadores do todo, mas nenhum deles foi o seu criador, que poderia guardar consigo os mistérios e ininteligibilidade do mundo.

Santo Agostinho escreveu que “A lei eterna é a razão divina, o a vontade de Deus, ordenando conservar a ordem natural e proibindo perturbá-la.” Mas se as idéias de Deus são Deus, a lei divina, por se identificar à razão de Deus, também seria idêntica a Deus, “cuja razão governa e move todas as coisas como ela as criou” 4. Aqui nota-se uma das grandes diferenças entre o cristianismo e o platonismo: a lei é o Deus criador no cristianismo, que move e dirige para seu fim todas as coisas criadas.

Assim, o pecado seria ir diretamente contra Deus: opondo a vontade Divina à revolta de uma vontade humana. O pecado faz do homem um adversário de Deus e um rebelde. Muitas vezes, sua causa é a ignorância ou a fraqueza. Mas quando ele é a negação de Deus com conhecimento de causa é bem mais grave, pois assim fazendo o homem se exclui da glória a que era destinado. Deus permanece na perfeição da sua beatitude, mas o homem perde a dele, pois é ela o efeito de Deus a que o pecador “se opõe e destrói pela revolta de sua vontade” 5.

Ver essa lei diretamente, então, seria como ver Deus. Algo impossível para o ser humano na concepção cristã. A lei se mostraria como uma “irradiação de luz divina” 6 em nossos corações e consciências. Mas eis aí a questão: os homens podem se recusar a perceber seus corações e consciências, como foi o caso do povo de Israel, onde o próprio Deus teve que revelar por escrito suas leis nos 10 mandamentos. Penso que esse caso específico abriu caminho para a absurda normatização cristã da moral que se seguiu a Santo Agostinho, contrária às próprias bases da teologia cristã. Seríamos nós um povo cada vez mais distante de nossos corações? Ou a necessidade de controle e manutenção do poder por parte das Igrejas cresceu tanto que suas próprias bases filosóficas foram postas de lado?



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GILSON, Étienne. O espírito da filosofia medieval. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.



--- Notas de Rodapé ---

1 São Tomás de Aquino, Sum. Theol., IIa-IIae, 145, 1, ad 2m.
2 Cícero, De inventhione retorica. II, 53.
3 Santo Agostinho, Cont. Faustum Manich., XXII, 27, Patr. Lat. T.42, col. 418.
4 Santo Agostinho, De civ. Dei, IX, 22, Patr. Lat., t. 41, col. 274.
5 São Boaventura, In Il Sent., 35, 1, 3, Resp., ed. Quarascchi, t. II, p. 827.
6 São Tomás de Aquino, Sum. Theol., Ia-IIae, 93, 2, Resp.



(Fabio Rocha)

A REFUTAÇÃO DA TESE DE QUE SENSAÇÃO É CONHECIMENTO NO TEETETO DE PLATÃO

Podemos dividir em 4 partes a refutação da tese de Protágoras de que sensação é conhecimento no texto (151d a 186e): auto-refutação (160e a 164e / 170a a 171d), argumento do futuro (177c a 179c), argumento da linguagem (179c a 183c) e refutação final (184b a 186e).


1. Auto-Refutação

Podemos considerar como um início de auto-refutação da tese o argumento de Sócrates de que se a verdade para cada indivíduo é o que ele alcança pela sensação, não pode ninguém além dele mesmo dizer que esta opinião pessoal é falsa. Asssim, ninguém pode ser considerado sábio ou não sábio em qualquer aspecto. Logo, não faria sentido, por exemplo, pagar para assistir às aulas do próprio Protágoras, sendo cada homem a medida de sua própria sabedoria.
A partir de 163d, Platão explora a questão tendo em vista o passado e as lembranças: se conhecimento é idêntico a sensação, ao perdermos a sensação de algo que já passou, teríamos que perder o conhecimento também, o que, obviamente, não acontece. Por exemplo: se fecharmos os olhos não perdemos imediatamente o conhecimento do que vimos no passado, o que mostra que sensação não pode ser considerada como algo idêntico a conhecimento.
Após uma defesa de Protágoras, a auto-refutação aparece em 170a, onde Sócrates afirma que a maioria das pessoas não acredita que o homem é a medida de todas as coisas, ou seja, que sensação é conhecimento. Isso pode ser percebido no fato de que a maioria dos homens prefere médicos a velejadores para tratar de suas feridas, por exemplo, mostrando que “os homens estão convencidos de haver entre eles sábios e ignorantes”. Assim sendo, seguindo a própria teoria de Protágoras, sendo a opinião de cada homem a verdade e a maioria dos homens não acreditando em seu princípio de que cada homem é a medida de sua própria sabedoria, “há mais razões para seu princípio não existir do que para existir”.
Mesmo que esqueçamos a questão da maioria, se apenas um homem tiver opinião contrária a de Protágoras, a tese se auto-refuta, pois diz que toda opinião seria conhecimento verdadeiro, inclusive aquela que nega a tese.
Cabe aqui uma visão mais crítica sobre o que pode ser uma redução de Protágoras a algo caricatural por parte de Platão, como nos parece ser feito mais tarde nesse mesmo texto com Heráclito: Será que podemos dizer que a frase “O homem é a medida de todas as coisas.” traz em si o pensamento de que o homem traz APENAS em si mesmo o critério decisivo de tudo? Indo além: será esta frase exatamente igual a “Conhecimento é percepção sensível.” e a “Todo conhecimento é percepção sensível.” e a “Todo conhecimento verdadeiro é percepção sensível.”? Deixo a questão em aberto neste trabalho, pois precisaríamos estudar diretamente os textos de Protágoras para tentar respondê-la melhor. Mas é perceptível a tendência neste texto de Platão (assim como na história da Filosofia) de reduzir pensadores anteriores a estereótipos deles mesmos, na busca de melhores argumentações para seus próprios pensamentos ou uma maior facilidade de se contar a história da Filosofia. O próprio Platão sofreu e sofre este mesmo processo, resumido como o grande separador do mundo sensível do mundo das idéias, ou ao ter seus mitos lidos literalmente, como se fossem sua percepção de realidade (apesar de todas as passagens em que o próprio autor afirma o oposto).


2. Argumento do futuro

Aqui Sócrates inicia falando da promulgação de leis de uma cidade qualquer, que deveriam ter como finalidade o bem comum no futuro. No entanto, há casos de cidades que erram, não alcançando esse bem no futuro, contrariando o pensamento de Protágoras de que não há homens mais sábios do que outros.
Ainda mais: se seguirmos a tese de Protágoras, ainda podemos pensar que no presente e no passado, a sensação pode realmente ser algo totalmente individual ou uma “verdade própria”, mas se pensarmos em problemas envolvendo o futuro como o da promulgação das leis de uma cidade visando algo melhor no futuro, fica mais difícil manter a interpretação de Protágoras. O exemplo e argumento do próprio Sócrates: “[...] nos preparativos de um banquete, a opinião do convidado desconhecedor da arte culinária valerá menos que a do cozinheiro, em matéria do tempero das iguarias.” Ou seja, para o resultado efetivo futuro do banquete, vale mais a opinião de um homem do que de outro.
Mas, novamente defendendo Protágoras, e aproveitando o mesmo exemplo,esta tese de Sócrates só me parece poder ser plenamente aceita, se considerarmos que há um critério universal, único, correto, fixo e padrão de apreciação de banquetes. No caso da cidade, se considerarmos que há um critério universal de bem comum. No caso do médico, se considerarmos que há um critério universal de saúde. E, particularmente, acho difícil identificar quaisquer desses critérios universais se levarmos em conta, por exemplo, a imensa variação de comportamentos e gostos humanos ao longo da história ou até mesmo em diferentes partes do planeta numa mesma época.
O ponto fundamental deste argumento consiste em mostrar que não se pode sustentar que qualquer opinião sobre eventos futuros é verdadeira, pois os eventos ainda não aconteceram de tal ou qual modo.


3. Argumento da linguagem

A partir de 179c, começa a crítica a Heráclito e seus sectários, como apologetas do devir. Aqui analisarei mais a fundo a questão do devir e do mobilismo absoluto heraclítico, com base nos fragmentos de Heráclito a que temos acesso hoje.
Fragmento 12: "Para os que entram nos mesmos rios, afluem sempre outras águas; mas do úmido exalam também os vapores."
Fragmento 49a: "No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos."
Aparentemente, foi desses dois fragmentos que a tradição estabeleceu um estereótipo de Heráclito como mobilista absoluto, defensor de que tudo é devir e que o devir é absoluto. Mas, antes de analisar essa questão, precisamos responder outra nada banal: o que é o devir?
Platão separa o movimento em dois tipos: a translação ("[...] quando ela muda de lugar e também quando gira em torno do mesmo ponto [...]"), referindo-se a movimentos no espaço-tempo e a alteração, como mudança qualitativa ("[...] quando determinada coisa, parada no lugar em que está, vem a envelhecer ou de negra fica branca [...]"). Para Platão o devir de Heráclito seria relativo aos dois tipos de movimento. Essa questão é controversa. Particularmente, me parece que Heráclito trata do devir como alteração qualitativa e não movimento físico em seus fragmentos, mas Platão talvez tenha tido acesso a mais textos de Heráclito do que nós. Além disso, essa separação talvez não seja algo simples, se analisarmos com base na ciência atual: uma alteração de cor, por exemplo, não deve ser considerada como uma mudança espaço-temporal nos átomos da superfície de um objeto? Assim sendo, ela seria uma translação ou uma alteração? Será que, na contemporaneidade, considerando-se a química e a física quântica, podemos definir claramente os limites dessa separação platônica?
Outra abordagem da questão do devir para Heráclito (que me parece mais importante que a do Teeteto): ele trataria dos objetos que compõem a realidade ou das relações entre esses objetos? Se pensarmos que o mundo é algo pronto, dado, talvez a análise apenas dos objetos, a partir do puro Logos, nos baste. Mas Heráclito é anterior à separação Platônica de Logos e Mito. É ligado ao mistério e ao mito e consegue perceber o mostrar-se (e esconder-se) do real como experiência originária. Ele vê no fogo, por exemplo, muito mais que o fogo dado, banal, pronto, definido, esperado. Ao contemplar as chamas, Heráclito surpreende-se com o fogo, e esse processo onde a filosofia toca o mito faz com que se abra o "ver ontológico". Não se trata de compreender a essência metafísica do fogo como algo separado do fogo que se mostra, mas sim o seu aparecer originário, seu brotamento e morte constante mas novo a cada instante, seu crepitar, seu calor, seu brilho, todo o devir constante de relações com o corpo que o sente. O fogo, aliás, talvez seja a melhor metáfora para o fragmento que diz "Transformando-se, repousa." Sem tranformação, não há chamas. Onde não há transformação, o fogo já apagou.
Podemos, então, dizer que na concepção de devir há pelo menos dois "devires": um devir "ontológico", o da physis, que é o do vir-a-ser do que antes não era, e um devir dentro do plano do que já é, das coisas do mundo e das relações que percebemos através dos sentidos. Mas não parece haver uma divisão precisa entre esses dois "tipos" de devir.
Agora que consideramos a complexidade e dificuldade da questão do devir, voltemos à questão do mobilismo absoluto, em Heráclito:
Fragmento 1: "Com o Logos, porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido. Como efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo como este Logos e, não obstante, eles parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras, iguais às que levo à cabo, discernindo e elucidando, segundo o vigor, o modo em que se conduz cada coisa. Aos outros homens, porém, lhes fica encoberto tanto o que fazem acordados, como se lhes volta a encobrir o que fazem durante o sono."
Com o vigor da physis brotando nessa análise do real, Heráclito, já no seu fragmento primeiro, afirma que o Logos "é sempre", é tempo aión, sem início nem fim, diferente da dimensão do tempo de cronos. Considerando-se também o fragmento 84 ("Transformando-se, repousa."), o fragmento 30 ("O mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando.") me parece impossível compartilhar a visão de muitos apologetas do devir radical de que para Heráclito tudo é devir e mudança, como que forçando um exagero na visão do movimento em Heráclito, do mesmo modo que o fazem com a estabilidade em Parmênides. Todos esses fragmentos tratam de um ponto em comum: um repouso na transformação, uma perenidade além do tempo cronológico, e uma continuidade, uma conjunção de antes e depois no fogo sempre vivo do mundo.
Outro fragmento que pode se interpretar como contrário ao devir absoluto é o famoso 50 ("Auscultando não a mim mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um."), pois, neste trecho, temos um princípio constante e originário que unifica a totalidade, se conseguirmos percebê-la através do Logos. E esse um não se desgasta, não se corrói: o verbo usado é ser, não estar.
Além do real em suas manifestações múltiplas e que percebemos através desse espaço-tempo imediato, Heráclito percebe um real originário e uno, uma totalidade integrada, além do tempo cronos, que se esconde dos outros homens (os muitos que dormem, ou os "hoi-poloi", presos a visões particulares dos entes). Mas é interessante observarmos que Heráclito destaca também constâncias. A própria mudança, o devir, o novo, o instantâneo que brota a cada instante da physis numa nova configuração. Como podemos, então, concordar com o mobilismo absoluto como atribuição corrente feita ao pensamento de Heráclito, se há constância, para ele, até mesmo no próprio devir?
Até mesmo Platão parece apontar para uma situação impossível ao analisar mais detidamente essa hipótese de mobilismo absoluto no Teeteto (passagens 179d a 183c). Se até mesmo as sensações não possuem nada fixo, seria mais correto afirmar que algo não é visto do que é visto. Se conhecimento é sensação, o problema se estende ao conhecimento, ficando qualquer resposta à questão “o que é conhecimento?” igualmente justa, já que nada “é” e tudo “está”. Para Francis Conford, a leitura radical de Heráclito nessa passagem do Teeteto leva ao absurdo. Se tudo se move, nem a linguagem seria possível, se tudo se transforma o tempo todo. Imaginemos como nos fazer entender sem nada fixo: o som dos fonemas, o sentido das palavras etc. É com isso que brinca Sócrates (183b), alfinetando os apologetas do devir total e absoluto, ao responder a Teodoro, que havia dito que Sócrates tinha razão dessa forma: "Menos, Teodoro, no ter eu dito: Assim e Não assim. Pois nunca devemos valer-nos da expressão Assim, visto que esse Assim já não seria movimento. [...]"


4. Refutação final

A refutação final à tese de Protágoras inicia-se com a constatação de que a percepção sensível se dá por meio dos órgãos e não com eles. Essa exigência de precisão nas palavras por parte de Sócrates visa identificar um “princípio percebedor” no corpo, para os vários sentidos, que consegue, inclusive, analisar separadamente cada sensação (por exemplo, cor e sabor de uma fruta). Estaria na alma (ou na razão) esse princípio, e não em algum órgão particular. Assim, “[...] algumas coisas a alma investiga por si mesma, e outras por meio das diferentes faculdades do corpo [...] ” (185e). Através da alma (razão) é que se pode comparar as propriedades das coisas, usando conceitos como maior e menor, igualdade, semelhança etc. Assim, os homens captam impressões pelo corpo, mas para relacioná-las entre si ou chegar à sua essência, precisa-se da alma (razão). E a verdade sobre uma coisa só seria alcançada através da essência dessa coisa, no raciocínio a seu respeito. Aí, sim, se encontraria o conhecimento, e não nas impressões primeiras dos sentidos, que qualquer animal além do homem também possui. Essas impressões diretas dos sentidos, Sócrates chama de sensações, separando-as do conhecimento que se obtém através da alma (razão). Refuta, assim, mais uma vez, a igualdade entre conhecimento e sensação.


Bibliografia:

PLATÃO. Diálogos.Volume IX: Teeteto – Crátilo. Pará: Universidade Federal do Pará, 1973.

OS PENSADORES ORIGINÁRIOS. Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Trad. Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewiski. Petrópolis: Vozes, 1991.



(Fabio Rocha)