sexta-feira, 22 de junho de 2007

ÉTICA A NICÔMACO: A FELICIDADE PARA ARISTÓTELES

A escolha do tema deste trabalho surgiu com uma interpretação gradual, à medida em que se lia vários trechos do “Ética para Nicômaco”, do que era o conceito de felicidade para Aristóteles. Com essa nova (e bela) visão do que era “ser feliz”, pareceu-me fundamental contrastar aqui essa perspectiva com a que temos hoje da felicidade, tão absurdamente distante e, como o próprio Aristóteles diz, “infantil”. Portanto, não escolhi aqui um trecho apenas da sua obra, mas tentarei resumir dos livros 1 e 10 da Ética, o que era a felicidade.

Hoje, pode-se afirmar que a imensa maioria da população passa seus dias em atividades de que não gosta (trabalho), aspirando ganhar na loteria ou tentando acumular dinheiro para justamente poder parar com essa atividade desprazerosa e, ainda assim, sobreviver. As horas que sobram no fim do dia, geralmente são desperdiçadas assistindo-se passivamente televisão ou outro tipo de “passatempo”, onde a felicidade é vendida pelo marketing como objetos a serem comprados, status, fama, ou seja, pequenos prazeres ou recompensas por um trabalho sem prazer nenhum. Mas diz Aristóteles:

“Ora, esforçar-se e trabalhar com vistas na recreação parece coisa tola e absolutamente infantil. (...) A relaxação, por conseguinte, não é um fim, pois nós a cultivamos com vistas na atividade.” (livro 10, capítulo 6).

O conceito de felicidade para Aristóteles é inverso a essa vontade de parar, esse cansaço (talvez causado por uma falta de rumo, de propósito) que nos assola. Também difere de um estado passageiro, por termos comprado um carro novo, por exemplo. Para o autor, felicidade é agir. Constantemente. E agir bem, graciosamente, na justa medida: no tempo correto, na intensidade correta, na direção correta, buscando cuidadosamente a excelência de cada ato. Com o mesmo cuidado que um bom poeta tem com cada palavra em seus versos. Como o guerreiro grego que Nietzsche exalta em suas obras. Ética ligada a estética. Atividade bela e vital! Lembra, inclusive, o conceito nietzscheano de fazer da própria vida uma obra de arte. Nas palavras de Aristóteles:

“Os primeiros (se referindo ao “vulgo”, diferenciando-o dos “sábios”) pensam que seja alguma coisa simples e óbvia (a felicidade), como o prazer, a riqueza ou as honras (...) como a saúde quando se está doente ou como a riqueza quando se é pobre.” (livro 1, capítulo 4).

Agora, notemos a distância disso tudo com ganhar na loteria para poder não fazer nada... E a importância de repensar urgentemente a felicidade, hoje.

Esse movimento não é individualista, como pensamos a felicidade contemporânea. Ao contrário. É belo também por visar o bem geral, o bem político (lembrando que a expressão político vem da pólis grega, totalmente diferente do conceito atual de política, aplicado a países, estados ou cidades enormes, com uma enormidade de pessoas, leis e instituições desconhecidas, onde se perde com muito mais facilidade a idéia de bem comum). No livro 1, isso fica bem claro nas passagens abaixo, sobre a política:

“Ninguém duvidará de que seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar de arte mestra. (...) a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras , de modo que essa finalidade será o bem humano .” (livro 1, capítulo 2).

“O objetivo da vida política é o melhor dos fins, e essa ciência dedica o melhor de seus esforços a fazer com que seus cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações.” (livro 1, capítulo 9).


Cabe aqui um parágrafo para aprofundar um pouco mais a noção de bem para Aristóteles. Essa busca pelo bem, ou pelo “sumo bem” Aristotélico, não tem nada em comum com o conceito de bem cristão que nos vem logo a mente hoje ao se falar de “bem”. Não é um bem ligado à bondade e resignação. Mas sim um bem viver, ligado a excelência (bem fazer). E também não é uma idealização retórica ou utópica, separada de nossa vida prática. É algo que podemos efetivamente alcançar em nosso agir, nos tornando mais felizes em cada mínimo ato:

“O que nós buscamos aqui é algo de atingível .” (livro 1, capítulo 6).

Voltando ao tema da felicidade, o seu ponto máximo, mais constante, duradouro e prazeroso, para Aristóteles, seria gerado pela atividade contemplativa. O prazer completa essa atividade, tornando-a um fim em si mesma. Prazer que se confunde com vida, movimento, atividade, criação.

Essa atividade de “viver de acordo com o que há de melhor em nós”, só seria possível graças a um pequeno detalhe presente no homem: o Nous. Detalhe esse que nos diferencia dos outros animais e nos dá a possibilidade de se aproximar dos deuses, do todo, do eterno. Nos imortaliza. Uma obra de arte humana que me dá sempre essa impressão é a música clássica, que inspirou o poema com que termino este trabalho:

NOTURNO

Não, não nos basta
o chão.

Por isso, é preciso
vestir-se de estrelas
e cavalgar o sonho
no ritmo do divino.

Esmagados contra a terra
pela grave e forte gravidade
voltamos a face para o céu.

Na alma humana
cabe o universo infinito.

(Fabio Rocha - 14/08/04 )



Bibliografia:

ARISTÓTELES. São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1973 (Os Pensadores).

(Fabio Rocha)


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PARTE 2 - Como a atividade contemplativa sabe aproveitar como feliz “cada pequeno momento”?

Pensei em uma resposta para essa difícil questão, enquanto estudava a poética de Bachelard. Para ele, a imagem poética, além de romper com a noção de causalidade, deve ser percebida a cada instante. É de um tempo caótico, instantâneo. Essa imagem não sobrevive com a mesma força após uma análise psicanalítica do passado do poeta (que é justamente a crítica de Bachelard à Freud – que, quando faz esse tipo de psicanálise racional da arte, “Explica a flor pelo estrume.”), muito menos uma origem no mundo real como base para sua criação. É uma criação de nova realidade, uma sobre-realidade, uma surrealidade (Bachelard foi contemporâneo do movimento surrealista, inclusive). Instantânea no poeta ao fazer o poema e no leitor, quando lê o mesmo, sempre totalmente subjetiva.

Bachelard se assemelha a Aristóteles ao ligar a felicidade à ação, negando a imagem estática do Pensador (escultura de Rodin), sentado, com a mão apoiando o queixo, aparentemente com a mente longe, perdida em divagações, enquanto o corpo se mantém imóvel, sem nenhuma atividade prática:

“a mão operante e trabalhadora de que fala é a mão feliz, a serviço de ‘forças felizes’ porque forças criadoras.” (Páginas xx e xxi)

A linguagem é um limitador para se poder explicar a questão prática de como aproveitar feliz cada instante, mas acho que estas definições de Bachelard nos ajudam a, pelo menos, nos aproximar de uma resposta, que já havia na própria ética de Aristóteles: vivermos plenamente no momento (instantâneo) presente. Tão simples de teorizar quando difícil de executar (e mais ainda de manter-se executando constantemente).

Mas como seria esse viver pleno? Agindo, criando, com corpo e mente abertos, alertas para a justa medida, para a excelência e raridade de cada ato, com uma percepção - noética - capaz de sentir o todo, a physis, indo além dos sentidos (Os quatro elementos, tão utilizados pelos Pré-socráticos, por exemplo, seriam, como “sonhos fundamentais”, uma forma de percepção maior, do simbólico, do além dos sentidos, para Bachelard. Ar, terra, água e fogo como símbolos, arquétipos universais, que o autor chamou de “componente material de toda imagem poética”).

Utilizando um caráter mais imagético e menos racional, podemos citar novamente Bachelard:

“... a imagem poética existe sob o signo de um ser novo. Esse ser novo é o homem feliz..” (página xxix).

Mas uma resposta definitiva, um modo de manter esse estado corpóreo e mental sempre, constante, é algo que não consegui. E que talvez seja mesmo inalcançável para a condição humana. Porém, como Platão disse sobre sua República, mesmo que não seja objetivamente possível, penso ser muito válido discutirmos o tema.



Bibliografia:

ARISTÓTELES. São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1973 (Os Pensadores).

BACHELARD, G. O direito de sonhar. Introdução (de José Américo Motta Pessanha).

PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2006.

(Fabio Rocha)


OBS: Trabalho apresentado na 1a Semana de Graduação de Filosofia da UERJ, em 17/10/2007.



Ainda sobre felicidade e filosofia, leia: http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/a-felicidade-esta-ao-alcance-do-homem-comum-ou-ela-e-uma-condicao-do-filosofo-soraya-monteiro-deminicis/

5 comentários:

Anônimo disse...

Caramba....adoreii!
Nao sou estudante de filosofia, mas gostei muito...parabeenss!!
Estou no primeiro semestre de Administracao...e seu post me ajudou bastante em um trabalho sobre o qual tinha algumas duvidas...

p.s. vc escreve muito bem...


Fernanda Ramalho

Fabio Rocha disse...

Putz, que delícia de comentário, Fernanda

Eu fujo da linguagem que só filósofo entende, acredito e tento apoiar a popularização da Filosofia, sendo ela tão necessária atualmente...

Que bom que você entendeu e gostou e lhe foi útil, obrigado por comentar.

OBS: Também sou formado em administração de empresas e trabalhei um tempo com Marketing. ;)

Anônimo disse...

É verdade...As pessoas já tendem a
não gostar de filosofia...uma linguagem mais fácil, acesível, torna tudo mais fácil...
queeeem sabe meu professor pense assim algum dia desses....hehehe...

Pra falar a verdade não pensava em fazer administração, queria ser veterinária...mas depois que comecei... :]
só sei que estou adorando e realmente tem tudo a ver comigo...


até mais...


Fernanda

vozdeosher disse...

Fábio,
Primeiramente, parabéns! Ótima postagem.

Relacionar conceitos com realidade nos leva a impressionantes revelações. É tão estranha, a contradição a que chegamos em nossa sociedade. Aristóteles propunha o equilibrio, e ao contrário, vivemos situações cada vez mais tendenciosas a apenas um dos lados. Se a Felicidade está relacionada a "atividade", simplesmnte ignoramos isso, para buscar vidas passivas, desejando produtos perecíveis, e cometendo atos, digamos, "nada nobres". Se por um lado buscamos a passividade,por outro agimos constantemente só que num modo automatizado. Somos homens ou máquinas? Se somos homens, teremos que trasmutar essa nossa realidade se quisermos atingir a nossa finalidade de ser feliz. Agora se somos máquinas, ignoremos tudo o que foi dito até agora, e continuemos a processar dados filosóficos, sem aplicá-los efetivamente.


Beijos

NChristine

Fabio Rocha disse...

Obrigado, Christine! Beijos