quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Prólogo de Zaratustra: a águia, a serpente e o santo

Assim começa o livro: "Aos trinta anos de idade, deixou Zaratustra sua terra natal [...] e foi para a montanha." Zaratustra abre mão do conforto e segurança de sua heimat para se aventurar na inóspita, dura, isolada montanha, onde passou simplesmente dez anos. Considerando o tom profético-religioso do texto semelhante a passagens bíblicas (porém claramente crítico do cristianismo e seus dogmas), podemos pensar aqui num retiro semelhante ao de Jesus Cristo no deserto. Zaratustra deixou os homens, as certezas e confortos de terra, para escolher o ar puro das alturas e a solidão.

Durante todo esse tempo, teve como únicas companhias uma águia e uma serpente. Podemos nos aprofundar na simbologia desses animais.

A serpente é um ser rastejante, que passa a vida toda com seu corpo inteiro colado ao solo, se esgueirando entre rochas e sombras. Seu ataque é ardiloso, geralmente, contando com o elemento surpresa e o veneno que carrega na boca. Talvez seja uma representação do racionalismo excessivo, da sistematização excessiva, do ser "pé no chão" até demais.

A simbologia da serpente é vasta e com bastantes variações ao longo da história, mas sempre tende a estar ligada a terra e a inteligência. "A serpente guarda em si intrigantes paradoxos: se por um lado exprime uma ameaça (já que de seu veneno pode sobrevir a morte), por outro, resume no processo de renovação de sua pele todo o intrincado mistério da vida, que se atualiza em movimento rejuvenescente." (fonte: Paulo Urban - http://www.terra.com.br/planetanaweb/341/reconectando/civilizacoesetribos/a_simbologia_da_serpente_01.htm )Essa simbologia da renovação constante me parece bem interessante. A águia, como falaremos mais adiante, também passa por um ciclo (mas um apenas) de transformação. Talvez ambos os animais, nesse sentido, representem o devir e a mudança como companheiros de Zaratustra nas alturas.

Além disso, a imagem da serpente comendo a própria cauda, formando um círculo, num movimento circular e contínuo (antiga imagem alquímica do "ouroboros" ou "oroboro" ou "uróboro") é também uma visão da unidade em tudo e todos, a totalidade da existência, sem início nem fim, e pode muito bem estar presente no texto nietzscheano como um elo com o conceito de "eterno retorno". Na poesia de Ana Hatherly:

"O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando."


O extremo oposto, a águia, animal sagrado de Júpiter, é o belo, forte, veloz, aéreo, solar, apolíneo, de ataque preciso e direto. Não está preso ao chão. Aliás, muito pelo contrário, no chão é presa fácil - o inverso da serpente. A águia pode estar representando o outro lado que todo ser carrega dentro de si: divagador, sonhador, poeta... Será que poderíamos colocar também o filósofo aqui?

Ainda sobre a simbologia da águia: "A águia, como símbolo da força, da grandeza e da majestade, foi usada nos exércitos, figurando nos estandartes de Ciro, rei dos Persas, e, mais tarde, durante o segundo consulado de Mário, encimando as lanças que eram insígnias das legiões. [...] Na simbologia cristã aparece a águia, simbolizando talvez a ressurreição e o triunfo de Cristo e do cristianismo. [...] Foi também o símbolo da alma humana, o símbolo das artes. Chama-se águia ao homem muito perspicaz, penetrante, que vê claro e longe; superior em inteligência." (fonte: http://sotaodaines.chrome.pt/sotao/aguia_2.html )

A renovação, a transformação de Zaratustra nesse período de isolamento de 10 anos na montanha também tem algo de semelhante com um processo pelo qual as águias passam: "O ciclo de vida das águias é dividido em duas etapas de 35 anos em média. Ao final do primeiro ciclo, seu bico já está encurvado demais para ingerir alimentos, suas penas estão desgastadas para o vôo e suas garras demasiadamente grandes para segurar suas presas. Neste período a ave retira-se para uma encosta rochosa e começa o processo de renovação. Ela bate o bico contra as rochas durante dias até que ele caia. Depois de semanas nasce um novo bico forte e afiado com o qual ela arranca todas as penas e garras de seu corpo. O processo é doloroso, mas depois de aproximadamente 6 meses, com novas garras, bico e plumagem, ela está pronta para alçar o vôo da renovação. A simbologia da águia tem diversos significados e está presente como ícone representativo de inúmeras culturas." (fonte: http://www.keynes.com.br )

A presença dos dois animais no texto nos remete a Heráclito, que Nietzsche admite ter lhe influenciado fortemente: "O contrário é convergente e dos divergentes, a mais bela harmonia." (fragmento oito - tradução de Alexandre Costa) Talvez os dois animais "contrários" sejam convergentes a um meio-termo ideal, uma justa medida entre o céu e a terra.

Numa manhã, ao ver que o sol não seria feliz se não tivesse a quem iluminar, resolve descer a montanha e ir dividir com os homens sua sabedoria, como uma taça prestes a transbordar. Quer trazer o fogo, como Prometeu, do alto para o baixo, em sua pregação. Porém, como alerta Oswaldo Giacoia Junior em seu texto sobre este prólogo (ver bibliografia abaixo), "Zaratustra inicia propriamente sua pregação em torno dos trinta anos, dando assim a indicação daquilo que Nietzsche considerava a prematuridade do Cristianismo, enquanto religião constitutiva da medula ética da cultura ocidental."

Seu primeiro encontro é com um velho religioso, um santo eremita, que vivia na floresta, também isolado dos homens, para amar e louvar a Deus. Diz o santo: "Coisa por demais imperfeita é, para mim, o ser humano." Preferindo, assim, a companhia de Deus a dos homens. Podemos perceber aí amargura, desilusão e ressentimento com a humanidade? Esse comportamento lembra o de alguns monges ou padres, e uma questão interessante que traz é: será que essa harmonia ou iluminação no isolamento total não éum caminho "fácil demais" para o bem-estar? Não será uma fuga, na verdade? Como alguém que foge da luta, chamando o adversário mais forte de "imperfeito"? Outra questão interessante que o trecho suscita: a psicanálise diz que o que somos depende do olhar do outro sobre nós. O que é esse santo, então, se nenhum olho o vê?

O velho diz também: "Mudado está Zaratustra, tornou-se uma criança, Zaratustra despertou, Zaratustra; que pretendes, agora, entre os que dormem?" Outra referência a Heráclito, que para falar do tempo ayón usa a imagem de uma criança jogando consigo mesma. Além disso, Heráclito chamava os não iniciados, sem uma percepção filosófica maior do todo, de "os que dormem" (os "muitos" ou roi-poloi). A idéia da criança além do tempo, e dos limites do seu próprio corpo é bem explorada por Clarice Lispector no seu "Menino a bico de pena": "Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vivi. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo." (in Felicidade Clandestina, Rio de Janeiro, Rocco: 1998. p. 136).

Zaratustra descendo a montanha banhado em luz dourada parece querer adentrar as trevas do mito da caverna de Platão, e dividir sua luz com aqueles que acreditam que as sombras são a realidade, fazendo com que possam se libertar. Este é o papel do filósofo para Sócrates, na República... Mesmo que aqueles na escuridão venham a matá-lo. Mesmo correndo esse risco, Zaratustra quer dar-lhes de presente o super-homem (também traduzido como além-do-homem). Esse é o alerta que o santo dá a Zaratustra: "Queres, hoje, trazer o fogo para o vale? Não receias as penas contra os incendiários?"

É interessante notar que esse Zaratustra dançarino e sorridente poupa o santo, o primeiro ser humano que ele encontra em seu ocaso, e vai embora ("antes que vos tire alguma coisa"). Isso porque o velho na floresta ainda "não soube que Deus está morto!"


BIBLIOGRAFIA:

COSTA, Alexandre. Heráclito: fragmentos contextualizados. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.

GIACOIA, Oswaldo. O Além do Homem e o Último Homem: Considerações sobre o Prólogo de Assim falou Zaratustra. ETHICA - Cadernos Acadêmicos, v. 4, n. 2, p.69-87. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1997.

NIETZSCHE, F. A filosofia na idade trágica dos gregos. Trad. Maria Inês Vieira de Andrade. Lisboa: Edições 70, 2002.

_____________. Assim falou zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1983.

(Sites supracitados, no próprio texto.)


(Fabio Rocha)

3 comentários:

Thais disse...

Excelente!

gustavo bittencourt disse...

"Zaratustra descendo a montanha banhado em luz dourada parece querer adentrar as trevas do mito da caverna de Platão, e dividir sua luz com aqueles que acreditam que as sombras são a realidade"
Cara, Nietzsche negou em sua obra inteira a concepção de mundo verdadeiro e mundo aparente oriundos da alegoria da caverna de Platão, isso pode ser percebido quando ele se dirige à Glauco (interlocutor de Sócrates no clássico diálogo) em um de seus livros. Na visão de Nietzsche, não deve haver essa caverna para que os homens devam se esforçar para sair, pois essa busca da Verdade aprisiona o homem e suas vontades e instintos. Muito pelo contrário, há de se viver no mundo imanente que seria este suposto "mundo ilusório" na visão de Platão.

Fabio Rocha disse...

Gustavo, fiz uma comparação poética. Não afirmei nada sobre a obra inteira de Nietzsche.