quarta-feira, 25 de junho de 2008

DE HERÁCLITO A NIETZSCHE

Se pensarmos em ligações entre Heráclito e Nietzsche, muito possivelmente o primeiro conceito de que nos lembraremos é o do devir. Mas o que é devir?

Platão, no Teeteto (passagens 181c a 181e), separa o movimento de uma coisa em dois tipos: a translação e a alteração. Translação referindo-se a movimentos no espaço-tempo de uma coisa. ("[...] quando ela muda de lugar e também quando gira em torno do mesmo ponto [...]"). Alteração, como mudança qualitativa ("[...] quando determinada coisa, parada no lugar em que está, vem a envelhecer ou de negra fica branca [...]"). Para Platão o devir de Heráclito seria relativo a esses dois tipos de movimento. Essa questão é controversa. Particularmente, me parece que Heráclito trata do devir como alteração qualitativa e não movimento físico-espacial em seus fragmentos, mas Platão talvez tenha tido acesso a mais textos de Heráclito do que nós. Além disso, essa separação talvez não seja algo tão simples hoje em dia, se a analisarmos com base na ciência atual: uma alteração de cor, por exemplo, de preto para branco, não deve ser considerada como uma mudança espaço-temporal, já que ela consiste num movimento espacial diferente nos átomos da superfície do objeto? Assim sendo, ela seria uma translação ou uma alteração? Será que, na contemporaneidade, considerando-se a química e a física quântica, podemos definir claramente os limites dessa separação platônica entre movimentos no espaço e mudanças qualitativas?

Outra abordagem da questão do devir para Heráclito (que me parece mais importante, inclusive, que a anterior feita no Teeteto): ele trataria dos objetos que compõem a realidade ou das relações entre esses objetos? Se pensarmos que o mundo é algo pronto, dado, talvez a análise apenas dos objetos, a partir do puro Logos, nos baste. Mas Heráclito é anterior à separação Platônica de Logos e Mito. É ligado ao mistério e ao mito e consegue perceber o mostrar-se (e esconder-se) do real como experiência originária. Ele vê no fogo, por exemplo, muito mais que o fogo dado, banal, pronto, definido, esperado. Ao contemplar as chamas, Heráclito surpreende-se com o fogo, e esse processo onde a filosofia toca o mito faz com que se abra o que Aristóteles chamou de "ver ontológico". Não se trata de compreender a essência metafísica do fogo como algo separado do fogo que se mostra, mas sim o seu aparecer originário, seu brotamento e morte constante, mas novo a cada instante, seu crepitar, seu calor, seu brilho, todo o devir de relações com o corpo que o sente. O fogo, aliás, talvez seja a melhor metáfora para o fragmento heraclítico que diz "Transformando-se, repousa." Sem tranformação, não há chamas. Onde não há transformação, o fogo já apagou.

Para Nietzsche, a questão parece ter início já no seu primeiro livro, publicado em 1872, "O Nascimento da Tragédia". Nele, podemos pensar em dois tipos de devir, cada um ligado a um dos "impulsos artísticos da natureza" de que ele trata. Ao Dionisíaco, estaria ligado o devir da physis grega, o brotamento originário da vida, o nascimento eterno de cada instante, o vir-a-ser do que antes não era, partindo do que ele chama de "Uno-primordial" e tranformando-se em coisas, realidade. Ao Apolíneo, podemos ligar o devir das relações e das configurações das coisas individuais que apreendemos através dos sentidos, do "véu de Maia". Mas as coisas que nascem, ciclicamente, morrem. Assim, o devir se confunde nos dois impulsos opostos e complementares Apolíneo e Dionisíaco, pois todas as várias individuações apolíneas que nascem acabam retornando com seu fim para o Dioniso do Uno-primordial num movimento eterno. O que nos leva de volta a Heráclito, em seu fragmento 8, que diz: "O contrário em tensão é convergente; da divergência dos contrários, a mais bela harmonia".

É notável a influência dessa percepção do real afirmadora do devir em Nietzsche. A "vontade de poder", consiste numa teia de forças (ou relações ou elementos) em eterna luta, onde que a cada instante há uma síntese de vários elementos ao poder unificador de uma perspectiva vitoriosa (que seria a perspeciva que abarca o maior número de elementos). E essa vitória dura apenas um instante, sendo o próximo instante um reinício do zero, sem relação de causalidade com o anterior. É uma visão nietzscheana totalmente diferente de uma realidade definitiva, dada, pronta e estável. Vale destacar que a vontade de poder não é transcendente ou imanente, mas o elemento que compõe toda a realidade. Do mesmo modo que as cores granuladas ao se olhar de perto um quadro impressionista o formam. E, para Nietzsche, o devir contribui com a vontade de poder, por trazer incessantemente novos elementos para entrarem em conflito, que serão integrados ou não na teia de forças que compõe cada instante.

Podemos, então, dizer que em ambos os pensadores, há pelo menos dois "devires": um devir "ontológico", o da physis, que é o do vir-a-ser do que antes não era, e um devir dentro do plano do que já é, das coisas do mundo e das relações que percebemos através dos sentidos. Mas não parece haver uma divisão precisa entre esses dois "tipos" de devir.


Agora que consideramos a complexidade e dificuldade da questão do devir, vamos à questão do mobilismo absoluto, em Heráclito. Para Nietzsche, no seu "A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos", Heráclito é colocado como o oposto extremo de Parmênides, como fogo e gelo.Nietzsche afirma que Heráclito nega o ser em geral: tudo seria estar... A tradição parece acompanhar essa interpretação de Nietzsche. Muito possivelmente ela teve como uma de suas origens a leitura apressada dos famosos fragmentos 12 e 49a de Heráclito:

Fragmento 12: "Para os que entram nos mesmos rios, afluem sempre outras águas; mas do úmido exalam também os vapores."

Fragmento 49a: "No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos."

Porém, devemos considerar também outros fragmentos de Heráclitos, tais como:

Fragmento 1: "Com o Logos, porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido. Como efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo como este Logos e, não obstante, eles parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras, iguais às que levo à cabo, discernindo e elucidando, segundo o vigor, o modo em que se conduz cada coisa. Aos outros homens, porém, lhes fica encoberto tanto o que fazem acordados, como se lhes volta a encobrir o que fazem durante o sono."

Heráclito afirma, já no seu fragmento primeiro, que o Logos "é sempre", é tempo aión, sem início nem fim, diferente da dimensão do tempo de cronos. Ou seja, já fala aí de uma permanência, negando um devir absolutizado.

Considerando-se também o fragmento 84 ("Transformando-se, repousa."), percebemos um repouso no próprio movimento, ou seja, uma constância, algo perene, em repouso.

Fragmento 30 ("O mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando.") Aqui, há uma noção de eternidade estável, de perenidade constante, de algo que sempre foi, é e será como o fogo inapagável, que mesmo em eterna transformação a cada crepitar, a cada variação de suas chamas dançantes, continua sendo fogo.

Outro fragmento Heraclítico que se pode interpretar como contrário ao devir absoluto é o famoso 50 ("Auscultando não a mim mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um."). Neste trecho, notamos um princípio constante e originário que unifica a totalidade, se conseguirmos percebê-la através do Logos. E esse um não se desgasta, não se corrói: o verbo usado é ser, não estar.

Assim, me parece impossível compartilhar a visão de muitos apologetas do devir radical de que para Heráclito tudo é devir e mudança, como que forçando um exagero, uma radicalismo do movimento em Heráclito, do mesmo modo que o fazem com a estabilidade em Parmênides. Se lermos mais atentamente, todos esses fragmentos tratam de um ponto em comum: um repouso na transformação, uma perenidade além do tempo cronológico, e uma continuidade, uma conjunção de antes e depois no fogo sempre vivo do mundo.


Até mesmo Platão parece apontar para uma situação impossível ao analisar mais detidamente a hipótese de mobilismo absoluto no Teeteto (passagens 179d a 183c). Para Francis Conford, a leitura radical de Heráclito nessa passagem do Teeteto leva ao absurdo. Nem a linguagem seria possível, se tudo se transforma o tempo todo. Imaginemos como nos fazer entender sem nada fixo: o som dos fonemas, o sentido das palavras etc. É com isso que brinca Sócrates (em 183b), alfinetando os apologetas do devir total e absoluto, ao responder a Teodoro, que havia dito que Sócrates tinha razão dessa forma: "Menos, Teodoro, no ter eu dito: Assim e Não assim. Pois nunca devemos valer-nos da expressão Assim, visto que esse Assim já não seria movimento. [...]"


Assim, podemos perceber que Heráclito não é um apologeta do devir radical. Heráclito fala de um real originário e uno, uma totalidade integrada além do real em suas manifestações múltiplas que percebemos através desse espaço-tempo imediato, além do tempo cronos, que se esconde dos outros homens (os muitos que dormem, ou os "hoi-poloi", presos a visões particulares dos entes). Devemos observar que Heráclito destaca também uma constância no próprio devir: o que brota a cada instante da physis numa nova configuração, continuamente.

(Fabio Rocha)

4 comentários:

Raphael Guimarães disse...

NOssa... muito obrigado.
Adorei a explicação, pois o livro de Nietzsche fala muito da Devir, mas mesmo assim não consegui absorver muito o que seria essa tal "devir".

Barata disse...

Sabe onde posso encontrar o fragmento 49 do Heráclito em língua original - grego??

Fragmento 49a: "No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos."

Fabio Rocha disse...

Não sei, amigo.

Fabio Rocha disse...

Lembrei do livro que usei na UERJ e tinha o original em grego, amigo: "Heráclito: Fragmentos Contextualizados".