quarta-feira, 28 de março de 2007

TRABALHO SOBRE O TEXTO: DA MORTE E SUA RELAÇÃO COM A INDESTRUTIBILIDADE DO NOSSO SER-EM-SI - Arthur Schopenhauer

TRABALHO SOBRE O TEXTO
DA MORTE E SUA RELAÇÃO COM A INDESTRUTIBILIDADE DO NOSSO SER-EM-SI - Arthur Schopenhauer
(O mundo como vontade e representação, Suplemento ao livro quarto, capítulo XLI)

A Filosofia era considerada por Platão como “preparação para a morte”. Textos anteriores de Parmênides e Heráclito já tratam da questão do nascer e perecer. Há uma infinidade de Filósofos a tratar do tema e até Freud escreveu sobre a pulsão de morte (extremamente importante para a Psicanálise), tratando de como termos a certeza da morte nos influencia inconscientemente muito mais do que costumamos imaginar. A morte é um dos temas centrais de toda a Filosofia.
Schopenhauer fala da diferença entre a cosmogonia budista (e bramanista) e das outras religiões: para os primeiros, o homem é o próprio ser originário, cuja essência não tem nascer nem perecer (semelhante à idéia da physis, já presente nos textos de Parmênides e Heráclito, onde nascer e morrer seriam apenas ilusões para quem não vê o todo). Já para os católicos e os de outras religiões, o homem teria vindo do nada e só passaria a existir com o nascer. A implicação disso é que a idéia de morte é muito mais natural, menos preocupante, para o budista, enquanto os cristãos vivem no absurdo limite entre a aniquilação total antes do nascer e a imortalidade da alma após a morte.
Para Schopenhauer, as essências das coisas (as “coisas-em-si”) seriam inalcançáves pela razão e pelo conhecimento, mas podem ser alcançadas pela intuição. Difere de Kant, para quem essas essências seriam totalmente inalcançáveis. Já para Nietzsche, a essência das coisas (como algo além das coisas a que chegamos pelos sentidos), assim como um “mundo verdadeiro” não existiria.
É pela intuição que Schopenhauer acha possível chegar a essência única de todas as coisas (que percebemos através dos sentidos como suas meras representações – daí o título de seu livro). E essa essência seria a vontade, a força natural, a energia vital, o núcleo e a origem da realidade. Vontade além do conceito de tempo cronológico, por tocar o eterno, sem início ou fim. Além do Chronos e mais próxima do Aión. (“A matéria pura (...) é o reflexo imediato, a visibilidade em geral da coisa-em-si, portanto da vontade”).
Assim, nossas vidas individuais e nosso “eu” seriam ilusões, assim como nosso nascimento e morte, “fenômenos superficiais”. Schopenhauer Nossa consciência (ou alma) seria o resultado da vida orgânica, e não causa. Com isso, acabando-se a vida orgânica, a consciência também se acabaria. Particularmente, acho questionável essa certeza da consciência como resultado, pois com todo o avanço da medicina, até hoje não conseguimos atribuir com certeza um local específico em nosso corpo onde estaria a consciência (do mesmo modo, com a memória).
Mas, para Schopenhauer, as consciências se acabam junto com as vidas individuais e a essência, ou a espécie, é que sempre permanece. Se uma mosca dorme e no dia seguinte volta a zumbir, ou se morre e no dia seguinte outra mosca nascida do seu ovo vem zumbir - é a mesma coisa para o autor. Assim como os dias se acabam e voltam a nascer, as estações do ano sucumbem e florescem, “tudo existe sempre no seu lugar e na sua ocasião.” Podemos perceber aqui o conceito do trágico, também muito utilizado por Nietzsche e uma possível inspiração para o seu “eterno retorno”: “Disso que existimos agora, segue-se, pensando bem, que devemos ser em todos os tempos”.
Do mesmo modo que a água que flui numa cachoeira produz um arco-íris imutável acima dela, a sucessão de vidas individuais criaria uma espécie imutável acima delas. Schopenhauer parece aqui, querer trazer algo de modo mais científico e palpável (espécie) ao conceito de essência imutável e una. Porém, hoje em dia, já sabendo da extinção de várias espécies pelo homem, ou imaginando o fim da própria raça humana quando o planeta se acabar, parece ruim o conceito de espécie como exemplo de infinitude.
O temor da morte, Schopenhauer coloca em paralelo com a “vontade de vida”, ambos existentes em homens e animais. Esse medo de morrer e apego a vida em qualquer caso, seria inclusive insensato, como Sócrates já demonstrara na Apologia de Platão (se antes da vida havia o não ser, e se voltássemos a isso após ela, qual seria o problema?). Mas a vontade de vida seria “cega e desprovida de conhecimento”, instintiva como nos animais desprovidos de raciocínio. É interessante notar aqui que Schopenhauer nos aproxima dos animais pelo instinto, enquanto outros filósofos tendem a nos afastar dos animais pela razão.
Para Schopenhauer, o egoísmo do homem o faz limitar toda a realidade à própria pessoa. E a morte seria o desvelar desses véus de ilusão (os véus de Ísis), mostrando que o homem é parte do todo, e o todo é também o homem. Isso eliminaria a diferença entre externo e interno (o que Freud muito mais tarde diria que acontece com todas as crianças, que ao crescerem vão mudando de percepção e passam a se sentir individuais, separadas do mundo que as cerca). O homem que consegue manter esta percepção de parte do todo, para Schopenhauer, pode transformar seu egoísmo em altruísmo (compaixão) e estará muito mais bem preparado para a morte.

AMOR E MORTE

Dissolver-se aos elementos
virar árvore, carbono, pensamento
multiplicar-se em nada e paz
morrer...

Dissolver-se no outro
tornar-se mais por ser menos
derramar-se infinitamente em infinitos copos
metade cheios
amar...

A morte ama o amor:
o amor mata a morte.

Fabio Rocha - 08/05/05

2 comentários:

dade amorim disse...

Fábio, ainda não li tudo. Mas gostei do que consegui ler, e acho que vou gostar do resto.
Em algum momento volto aqui pra te dizer mais.

Fabio Rocha disse...

Oi, dade! Legal, que bom ter gostado!! Abração