terça-feira, 1 de julho de 2008

NIETZSCHE E A NECESSIDADE DE IDOLATRIA HUMANA

“Quanto a mim, os autores de que gosto, eu os utilizo. O único sinal de reconhecimento que se pode ter com um pensamento como o pensamento de Nietzsche é precisamente utilizá-lo, deformá-lo, fazê-lo ranger, gritar. Que os comentadores digam se é ou não fiel, isto não tem o menor interesse.”

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.


Do mesmo modo que o “homem de ação” nietzschiano, criador do grandioso no momento presente, pegou a tocha dos grandes homens do passado, sua obra será a tocha a encorajar os homens do futuro. Pois se foi possível a grandeza no passado, “será, algum dia possível novamente”. Aliás, não seria essa também a parte boa da história da Filosofia?

Esta fé em si mesmo como ativo, como parte do mundo, capaz de criticar, analisar e transformar o presente, é essencial no momento em que vivemos, egoístas sem visão do todo, treinados para sermos passivos, uniformes e não criadores desde a pré-escola, passando pelo dogmatismo das igrejas e culminando com trabalhos sem beleza, prazer nem criatividade, que têm como fim último o salário para a sobrevivência. Aceitamos tudo que nos é dado com um conformismo crescente e uma alienação protuberante!
Hoje, a globalização e o neoliberalismo são ótimos exemplos de processos internacionais que facilmente convenceram a quase totalidade da raça humana de sua irreversibilidade. Sem falar na idolatria do cientificismo, de que Nietzsche fala na passagem:

“Defendo-me contra toda tartufaria de cientificidade:
1 – em relação à exposição, quando ela não corresponde à gênese dos pensamentos
2 – nas reivindicações de métodos, que talvez não sejam absolutamente possíveis durante um determinado tempo da ciência
3 – nas reivindicações de objetividade, de fria ausência de personalidade, nas quais, como em todas as valorações, contamos com duas palavras sobre nós e nossas vivências interiores” 1


No aforismo 125 da Gaia Ciência, talvez fique explicada melhor essa necessidade de idolatria que o homem traz consigo ainda hoje, considerando-se que vivemos a época da “morte de Deus”. Esse aforismo trata do homem “toll”, que pode ser traduzido como homem louco ou desvairado. Ele está, em plena manhã, procurando Deus com uma lanterna: clara paródia à cena de “Diógenes, o cínico”, que buscava, também com uma lanterna no meio da luz do dia, um homem no meio dos homens (um homem com base no modelo grego, um herói, um homem mais próximo dos Deuses). Já na paródia nietzschiana, o homem busca a Deus. O local dessa busca é a agora, o coração da cidade, onde costumavam se reunir filósofos na Grécia, palco das grandes decisões sobre os destinos da cidade e do mundo. E ali se encontravam “muitos daqueles que não criam em Deus”. Ou seja, na paródia de Nietzsche, a busca por Deus é feita justamente no espaço dos filósofos, sendo muitos deles ateus. Mas o ateu, como negador de Deus, permaneceu preso a Deus para Nietzsche, do mesmo modo que o escravo liberto vive da medida da prisão onde estava antes de ser livre. A negação precisa sempre, primeiramente, que haja um Deus, para poder negá-lo. A partir daí, Nietzsche começa a falar da morte de Deus, que seria uma reintegração do plano supra-sensível no plano sensível, e não uma negação do supra-sensível, como no ateísmo. O assassinato de Deus seria uma supressão da dicotomia entre supra-sensível (Deus. Ser, imperecibilidade etc.) e sensível (sensação, devir, aparência, perecibilidade, composição etc.). A idéia de um Deus assassinável mostra-nos um pensamento já fora da concepção cristã de Deus criador do todo a partir do nada. Assim sendo, para Nietzsche, teria que haver uma origem ontologicamente anterior a Deus. Seria a vontade de poder.2 Assim, o Deus assassinável teria que ter sido também criado. A idéia de Deus seria humana, criada por um certo tipo de homem que, não suportando o devir, divide e separa o plano supra-sensível do plano sensível (metafísica cristã) e passa a tentar achar um acesso (impossível) ao supra-sensível. O sensível, o devir, a sensação, o corpo são desvalorizados nesse esquema e o supra-sensível acaba por se tornar, no cristianismo, acessível para a alma como paraíso, depois da morte do corpo, do mesmo modo que qualquer pensamento metafísico. Esse esquema apresenta desde seu início uma incapacidade de trazer consigo, sem tentar excluir, o plano sensível. A conseqüência natural disso, desse Deus assim criado, é a morte de Deus, como esgotamento do pensamento metafísico. Isso porque, para Nietzsche, a vida incessantemente suprime perspectivas separadas imóveis, trazendo-as para um combate automático entre si. A morte de Deus é, então, o fim da dicotomia, a integração entre os planos, reduzindo a totalidade a esse lugar, esse aqui e agora. É a partir do aqui que Nietzsche propõe o seu pensar. Mas a experiência da morte de Deus que vivemos também é aterrorizante: quando o homem louco do fragmento afirma que “nós o matamos”, usa de elementos poéticos para mostrar esse terror. “Beber o mar” remete-nos ao vazio da experiência quando o supra-sensível se dissolve: o que é a vida se não há nada além dela? Nenhum paraíso para a alma ou metafísica que tudo abarque e explique... “Apagar o horizonte” é a supressão de qualquer limite e de qualquer meta fixa. “Desatar a terra do sol” é a perda da visibilidade que a luz do sol proporciona, trazendo total indistinção. Este é o terror da queda desorientada e cega que a morte de Deus proporciona. Um devir incessante, absolutizado. Este terror lembra um pouco o terror dionisíaco da existência de outra obra de Nietzsche, “O nascimento da tragédia”, apesar das diferenças consideráveis entre as duas obras. Nela Nietzsche trabalha com uma justificação estética do existir, onde o Apolíneo redime o Dionisíaco e a vida faz sentido como obra de arte. Schopenhauer, aliás, também considera a arte (a contemplação estética) como um modo de se escapar da dor de se existir, condicionado ao will to life (o único outro modo, para ele, seria a negação de todo querer de algumas das filosofias budistas e bramanistas). Mas, voltando ao fragmento 125 da Gaia Ciência, após afirmar que nós próprios assassinamos Deus (o que não poderia ser diferente, aliás, já que nós os criamos ao dividir e separar os dois planos por não suportar o devir), Nietzsche diz: “O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob nossos punhais”. Ele mostra, assim, a força do pensamento metafísico, e passa a tratar da dificuldade natural nossa em aceitar que o matamos. Ele fala de limpar a mão do sangue de Deus com jogos sagrados, mostrando a necessidade humana de re-divinizar algo, para poder adorá-lo. A reconquista do sagrado para o profano. Fala também de “festejos de expiação”, o que nos lembra os festejos dionisíacos (também tratados no Nascimento da Tragédia), onde a desordem, a dor e a absolutização são superados com a integração com o apolíneo. Expiação indica também que ainda temos culpa. E, se há culpa, ainda há dificuldade em aceitar a morte de Deus. Sobre isso, Nietzsche complementa: “A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?” O que seria esse tornar-se Deus? No aforismo 143, também da Gaia Ciência, em que elogia o politeísmo, podemos encontrar algumas respostas. Não parece ser uma idolatria de si mesmo ou uma vingança, mas sim ter (e suportar ter) um ideal próprio, leis e direitos próprios, sem ter que adorar ou seguir algo externo. A base para essa soberania do indivíduo foi o politeísmo, segundo Nietzsche, pois a pluralidade de deuses trazia uma pluralidade de normas enquanto o monoteísmo traz consigo um só padrão de normalidade estagnada. O aforismo 125 termina com o homem louco com a lanterna na praça procurando Deus percebendo que chegou “cedo demais”. É como se Nietzsche percebesse que, mesmo tendo o homem efetivamente matado Deus, ele ainda não suporta não ter o que adorar. Ainda precisa das igrejas como “mausoléus e túmulos de Deus”.

Outro aspecto histórico a ser pensado como uma das possíveis causas do que vivemos na contemporaneidade, é o que Georg Simmel, enfoca em seu “O Fenômeno Urbano”: a passagem da vida no campo para as grandes metrópoles criou um modo de vida com tantos estímulos e com um ritmo de vida tão acelerado que o metropolitano, como defesa, tende a reagir menos emocionalmente e mais com a inteligência ou a quase não reagir (que ele chama de atitude blasé). Esse cenário de passividade, frieza e distância, quando comparamos com o modo de vida no campo, viria junto com a presença massificante do dinheiro, como medida de todas as coisas. Tudo perde o encanto, a “cor”, o caráter único, para se tornar um preço, para Simmel. Até mesmo os relacionamentos pessoais são afetados por esta lógica monetária.

Tudo isto lembra a passagem incrivelmente atual de Nietzsche:

“[...] Enquadrar-se, viver como vive o ‘homem comum’, achar correto e bom o que ele acha correto: isso é a submissão ao instinto de rebanho. Há que se levar sua coragem e o seu rigor longe o bastante para sentir como uma vergonha tal submissão. [...]” 3


--- Notas de Rodapé ---

1 NIETZSCHE, F. Vontade de Poder, aforismo 424.

2 A vontade de poder não seria algo transcendente ou imanente, mas o que compõe a realidade. É o resultado do embate entre perspectivas, que nasce a cada instante e onde o devir traz novos elementos que podem ser incorporados ou não (nesse último caso, enfraquecendo a vontade de poder). Deus era, assim, uma perspectiva unificadora, sintetizadora, pois permitia a percepção da existência como um todo. Porém, nunca pode absorver o devir, o que se mostrou na cisão supra-sensível / sensível. A metafísica produziu, assim, essa dicotomia, valorizando o supra-sensível e utilizando-o como medida para se pensar o sensível (vontade de tornar pensável todo ente, de reduzir a totalidade à pensabilidade). O colapso desse sistema por si mesmo seria a morte de Deus. A vontade de poder também seria uma perspectiva, porém mais forte, por conseguir integrar e colocar todas as outras perspectivas sob seu domínio.

3 NIETZSCHE, F. A Vontade de Poder. Aforismo 458.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômano. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
BACHELARD, G. O ar e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
_____________. Assim falou zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
_____________. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Hemus Editora, 1984.
_____________. Humano, demasiado humano. São Paulo: Rideel, 2004.
_____________. Nietzsche. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
_____________. O livro do filósofo. São Paulo: Centauro, 2004.
_____________. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
_____________. Segunda consideração intempestiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1983.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. São Paulo: UNESP, 2005.



(Fabio Rocha)