Sicko, de Michael Moore e sobre a necessidade urgente de Filosofia no mundo

Estava vendo o mais novo documentário de Michael Moore, "Sicko" (de 2007), baixado na internet em poucos minutos, e resolvi escrever algo aqui sobre ele. Recomendo, antes de tudo, qualquer filme do Michael Moore, até os que não vi... "Tiros em Columbine", particularmente sobre o tema do medo, achei genial. Mas o Sicko, é um choque já desde o início: um estadunidense de classe média acidentado costurando o horrível rasgo no próprio joelho na poltrona de sua casa para não ter que pagar um absurdo por tratamento médico.

Impressionante como nos habituamos a tudo, espectadores passivos do mundo, não nos revoltamos mais com nada, não achamos que podemos mudar nada, e, para ir mais fundo, penso que nos sentimos cada vez menos PARTE desse todo. No próprio filme, pessoas que trabalham no sistema doente dos planos de saúde dos EUA choram ao falar do emprego mas não largam os mesmos. Será que o nosso sistema atual não nos dá opção de sobreviver em uma atividade que pareça BOA se olharmos para ela de uma perspectiva filosófica? Mesmo que a renda caia, será que a felicidade de alguém só pode ser medida pelas cifras em sua conta bancária?

Caso pessoal: Eu mesmo, formado em administração de empresas, não sosseguei até mudar de área, mesmo vivendo com muito menos dinheiro... Mas sou muito mais satisfeito agora estudando Filosofia e "trabalhando" na criação de textos pro blog (ah, e poesia...), manutenção do meu site e webdesign para escritores. Isso porque, filosoficamente, me diga para que serve qualquer empresa? Qual o seu fim último? (Sem, claro, cair nas armadilhas de seus lemas internos que nunca correspondem à realidade). LUCRO, certo? Para quem? Para os seus donos ou sócios. Agora, sócios ou donos de empresas são pobres? Penso que não... Talvez haja exceções, (comentem suas idéias") mas eu tenho a ligeira impressão de que trabalhando para qualquer empresa você está simplesmente ajudando a CONCENTRAR AINDA MAIS RENDA. Ricos mais ricos e pobres mais pobres... Simples assim. Em troca disso, você recebe seu salário (de valor já calculado para não atrapalhar nos lucros, obviamente).

OK, talvez seja um ligeiro exagero... Mas e quando você trabalha ENGANANDO gente? Vendendo coisas que não precisam comprar? Vendendo cartões de crédito para se endividarem? Vendendo idéias para fazer pessoas comprar? Você já teve um olhar mais aprofundado sobre o que você anda, EFETIVAMENTE, fazendo no mundo de segunda a sexta, oito horas por dia?

Pior ainda: e quando a sua empresa MATA GENTE DIRETAMENTE para aumentar os lucros? É o caso das empresas que vendem os planos de saúde nos USA, desde que o governo deu a brecha para elas se instalarem (neoliberalistas de plantão, não percam esse filme). Moore, como sempre, nos choca e faz pensar.

(Fabio Rocha)

ZARATUSTRA E O ETERNO RETORNO

Esse trabalho visa analisar o conceito de eterno retorno de Nietzsche, que, aliás, ele mesmo considerava como seu pensamento mais profundo, e nunca foi finalizado em vida. Abordaremos as passagens "Da redenção" e "Da visão e do enigma" do livro "Assim falou Zaratustra".

(Outros trechos nietzscheanos que tratam do eterno retorno: "O convalescente", "Os sete selos" ainda no "Assim falou Zaratustra"; aforismo 341 do "A gaia ciência"; aforismo 56 do "Além do bem e do mal"; e trechos dos fragmentos póstumos, que podem ser encontrados no livro "Nietzsche" da coleção "Os Pensadores", da Abril Cultural.)

Parte 1 - DA REDENÇÃO

Aqui Zaratustra, cercado de aleijados e mendigos, numa clara referência a Jesus Cristo. Quando lhe falam para que os curasse, ele responde: "Se ao corcunda tiramos a corcunda, riramos-lhe o espírito." Ou seja, o espírito da gravidade, a carga, o peso do "Tu deves" que o camelo aceita (e pede mais) nas três transformações, não deve ser retirado por alguém exterior. Acredito que aqui, Nietzsche está ressaltando a importância do próprio caminhante fazer seu caminho ao caminhar, e também da aceitação da dor individual como fator de fortalecimento, de constituição de cada indivíduo: "E, se ao cego se dá a vista, vê ele demasiadas coisas ruins na terra: a tal ponto que amaldiçoa aquele que o sarou." Essa passagem está em harmonia com o aforismo 19 da terceira parte da "Genealogia da Moral", que fala do "amor ao próximo" como também uma forma de vontade de poder, pois há uma alegria em causar alegria, "felicidade da 'pequena superioridade', que acompanha todo ato de beneficiar, servir, ajudar [...]"

Logo depois, Zaratustra trata da falta de unidade artística nas pessoas, sua fragmentação ("A este falta um olho, e àquele, uma orelha[...]") ou especialização excessiva ("Isso aí é uma orelha, uma orelha grande como um homem!"), numa clara crítica ao músico Richard Wagner.

Então, Zaratustra entra no tema temporal: "E se fogem do presente para o passado, sempre meus olhos encontram a mesma coisa: fragmentos e membros avulsos e horrendos acasos - mas não homens! O presente e o passado na terra - ah, meus amigos, é isso, para mim, o mais insuportável; e não saberia viver, se eu não fosse também, um vidente daquilo que deve vir." Zaratustra vê o homem como uma ponte para o super-homem. Essa é sua motivação. E o passado é algo a ser "redimido": "Transformar todo 'Foi assim' em um 'Assim eu o quis!'[...]". Afirmar todo o passado, de forma ativa e não reativa, isso é o que Zaratustra propõe. Olhar sobre nossa própria história e a história da humanidade como algo que foi do nosso desejo, nossa vontade criadora, que nos torna o que somos... E assim unificar passado e futuro no presente, "Juntar e compor em unidade o que é fragmento e enigma e horrendo acaso." O "foi assim" nos deixa impotentes espectadores passivos em relação ao passado, potenciais vítimas do niilismo, o grande cansaço. "O querer liberta." Nessa "reconciliação com o tempo", podemos vislumbrar já o eterno retorno, misturando e unindo passado e futuro: "Assim eu o quis! Assim hei de querê-lo".

Parte 2 - DA VISÃO E DO ENIGMA

Essa passagem me parece particularmente interessante por demonstrar algum medo e paralisação de Zaratustra frente ao pensamento mais profundo de Nietzsche, o eterno retorno, alcançado após longa e árdua caminhada: "A subir - a despeito do espírito que o puxava para baixo, para o abismo, o espírito de gravidade, meu demônio e mortal inimigo. A subir, muito embora ele estivesse sentado nas minhas costas, meio anão, meio toupeira; aleijado, aleijador; pingando chumbo em meus ouvidos e pensamentos como gotas de chumbo no meu cérebro." Vejo nessa linda metáfora uma luta pela qual muitas pessoas passam diariamente, uma busca por pensamentos elevados, enquanto a realidade nos distrai, nos enche com o peso das preocupações com a sobrevivência e de "deveres" que lutamos para não aceitar como nossos. O peso do "Tu deves..."

Só quando Zaratustra se livra, vence esse anão, é que chega ao eterno retorno: "Mas a coragem é o melhor matador; mata, ainda, a morte, porque diz: 'Era isso a vida? Pois muito bem! Outra vez!'." Essa é uma postura positiva, afirmativa, dançarina, alegre de alguém que aceitaria um eterno retorno de sua própria vida se repetindo para sempre. Como um Sísifo sorridente a cada subida da pedra ao alto da montanha. Notem a importância que damos a cada pequeno ato e escolha do momento presente, se considerarmos que ele se repetirá pra sempre como fazemos no agora...

Ao mesmo tempo, Zaratustra nota o portal que estava a sua frente: "Olha esse portal, anão! Ele tem duas faces. Dois caminhos aqui se juntam; ninguém ainda os percorreu até o fim. Essa longa rua que leva para trás: dura uma eternidade. E aquela longa rua que leva para frente - é outra eternidade. Contradizem-se esses caminhos, dão com a cabeça um no outro: - e aqui, neste portal, é onde se juntam. Mas o nome do portal está escrito no alto: 'momento'." Assim é o tempo eterno de Nietzsche, infinito para trás (passado) e para a frente (futuro), porém sem ser circular. São caminhos retos. A repetição se dá pela configuração de cada instante, como resultado da luta de forças de cada momento, ter uma quantidade finita, enquanto o tempo é infinito para trás e para a frente. Assim, em algum momento, a configuração da luta de forças será exatamente igual a agora e, na minha perspectiva pessoal, escreverei novamente essa frase.

É aí que vem o medo a Zaratustra. "[...] Tinha medo dos meus próprios pensamentos." O luar do agora o leva a um luar do passado, a um assustador cão uivando para esse luar à meia-noite, arrepiado. Aqui sabemos de dados biográficos, que Nietzsche teve essa experiência real durante uma mudança de residência na sua infância. E surge a visão: "Vi um jovem pastor contorcer-se, sufocado, convulso, com o rosto transtornado, pois uma negra e pesada cobra pendia da sua boca." Zaratustra tenta arrancar a cobra com a mão sem sucesso e grita "Morde! Morde!". O pastor parece ser o próprio Zaratustra, e a pesada cobra negra o niilismo. Porém, por essa imagem de terror aparecer justamente no retorno à infância do autor, quero colocar em dúvida se não pode representar também o seu pai, pastor protestante que pregava sua fé através da palavra, podendo a pesada cobra saindo de sua garganta representar justamente isso. Nesse caso, a mordida na cobra representaria também o corte do próprio Nietzsche com a tradição cristã de sua família, uma morte e uma nova vida: "O pastor, porém, mordeu, como o grito lhe aconselhava [...] Não mais pastor, não mais homem - um ser transformado, translumbrado, que ria!"


BIBLIOGRAFIA:

NIETZSCHE, F. Assim falou zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

____________. Genalogia da moral. São Paulo: Companhia da Letras, 2006.

(Fabio Rocha)

A MORTE NO FÉDON E NA GENEALOGIA DA MORAL

No primeiro capítulo de seu livro "Aprender a Viver", Luc Ferry defende que a filosofia tem em comum com as religiões a tentativa de se resolver a angústia pela consciência da finitude, que todo ser humano carrega consigo. O que Freud chamou de "pulsão de morte". Obviamente que os caminhos da filosofia e da religião para resolver essa angústia são bem distantes. A primeira tenta pela razão a segunda, pela fé. Sobre o tema da morte, Lucrécio, discípulo de Epicuro, diz (poema intitulado "Sobre a Natureza das Coisas"):

"É preciso, antes de tudo, expulsar esse medo do Aqueronte [o rio dos Infernos] que, penetrando até o fundo de nosso ser, envenena a vida humana, colore todas as coisas do negror da morte e não deixa subsistir nenhum prazer límpido e puro."

O estóico Epicteto complementa:

"Tens em mente - diz ele - que para o homem o princípio de todos os males, da baixeza, da covardia, é... o medo da morte? Exercita-te contra ela; que para isso tendam todas as tuas palavras, todos os teus estudos, todas as tuas leituras e saberás que é o único meio que os homens têm de se tornarem livres."

Luc Ferry fala também de Montaigne, de seu famoso adágio segundo o qual "filosofar é aprender a morrer" e de vários outros filósofos posteriores, mas se esquece do filósofo anterior a todos esses, dono original da idéia que filosofar é aprender a morrer, Sócrates.

Nesse trabalho, pretendemos analisar a questão da morte no diálogo "Fédon", de Platão, tentando um diálogo com a "Genealogia da Moral", de Nietzsche.

O diálogo "Fédon", já da maturidade de Platão, ocorre na época posterior ao julgamento de Sócrates, e anterior à sua execução com a cicuta. Seus discípulos o cercam nesses últimos instantes de vida, sofrendo muito, parecendo por todo o tempo não entender a mensagem principal de Sócrates: que a morte é uma escolha, já em vida, de quem é filósofo: "o exercício próprio dos filósofos não é precisamente libertar a alma e afastá-la do corpo?". (Alma é "psiqué" no original grego, "anima" em latim, e não devemos confundir com o sentido atual, cristão do termo. "Anima" significa aquilo que dá animação, pode ser traduzida também como "vida", por exemplo).

Pois bem, o que Sócrates quer dizer aqui? Eis o grande problema dos manuais de filosofia sobre o Fédon: tratar tudo de forma literal, e alma como o que chamamos hoje de espírito. Assim fazendo uma separação brutal entre corpo e alma já no texto grego, o que na verdade só houve, posteriormente, no pensamento moderno. Se tomarmos o sentido de alma como vida e tentarmos perceber as sutilezas do texto, poderemos interpretá-lo, talvez, melhor: o filósofo é aquele que se coloca numa posição além dos sentidos (corpo), podendo ver melhor, através da própria vida. O pensamento filosófico mais profundo necessita de um afastamento dos sentidos, do que Sócrates chama de corpo, e exige uma racionalidade mais abstrata e etérea. Nesses momentos, um som, uma visão ou qualquer experiência sensória atrapalha.

Para Platão, o corpo, ao mesmo tempo em que pode atrapalhar o pensamento filosófico, como distração dos sentidos, também está ligado a esse pensar. Há uma interdependência e uma diferença entre os planos da percepção e da inteligibilidade. Parmênides, em seu poema, já dizia que “o mesmo é pensar e ser”, e esse ser é ser compreensível. A percepção vem da inteligibilidade. É difícil para nós, contemporaneamente, com a herança deixada por Kant, fazer essa mudança na perspectiva do mundo, já que estamos habituados a ligar a inteligibilidade ao sujeito e não aos objetos. Mas, para Platão, a inteligibilidade de cada coisa está no ser dessa mesma coisa e não em nós. Logo, tudo o que percebemos através dos sentidos do nosso corpo não deve ser considerado como o “mais real e verdadeiro”. Não se deve ficar SATISFEITO, CONFORTÁVEL apenas com o que os sentidos nos trazem. Não deve bastar. É justamente essa a ilusão dos seres acorrentados no mito da caverna da sua “República”. A percepção imediata dos sentidos, as sombras na parede da caverna, não podem ser suficientes para se entender o real.

Já Nietzsche chama o corpo de “Grande Razão” no “Assim Falou Zaratustra” (“Dos desprezadores do corpo”). O que é essa grande razão? “O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um único sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor.” Negação de qualquer coisa além, da metafísica. “A alma é apenas uma palavra para alguma coisa no corpo.” Negação da separação cartesiana entre espírito e corpo (que foi um dos grandes passos para que desprezássemos o corpo ao longo da história filosófica). “Eu sou corpo, por inteiro corpo e nada mais.” Tudo é o corpo. Podemos perceber também nessa “Grande Razão”, a presença de opostos (guerra versus paz, multiplicidade versus único sentido) e de tendências contrárias (rebanho versus pastor). Interdependência e diferença num conflito interno que, porém, segue um “único sentido”. Se pensarmos que as células de nossa pele, por exemplo, morrem e são totalmente substituídas a cada vinte e oito dias, não parece nada absurdo o pensamento de Nietzsche. Além disso, a ciência nunca conseguiu, até hoje, determinar com exatidão o lugar de nossa consciência no corpo. Nem a psicologia definir o que chamamos de “eu”. Para Nietzsche, o pensar é como um movimento do corpo... Ele mesmo gostava de longas caminhadas por bosques e montes para pensar. Enquanto nossas rotinas contemporâneas de estudo e trabalho, além da busca por conforto e segurança, nos deixam cada vez nos movendo menos (o que contribui para esse aumento da obesidade mundial), ou em movimentos que tendem a ser repetitivos, previsíveis, monótonos.

Mas então Nietzsche fala o oposto de Platão? Ele valoriza o corpo enquanto Platão valoriza a alma (o “Nous”)? Talvez não. Pois ao mesmo tempo em que o pensamento noético exige um “afastamento” dos sentidos corpóreos, é através desses mesmos sentidos que todos nós aprendemos, passo a passo, a elaborar qualquer tipo de raciocínio. Através do corpo é que aprendemos a linguagem, por exemplo...

Eis aqui mais uma sutileza que uma leitura literal (ou seria apressada?) de Sócrates deixa escapar. Há uma pressa na Academia em rotular e definir, para facilitar o enquadramento em sistemas estagnados que são passados por gerações e gerações de professores metódicos e superficiais, com palavras difíceis, para ouvidos poucos... Talvez se perca com isso muito mais do que nas diversas traduções pelas quais o texto original em grego passou.

Pois bem, nessa parte do trabalho, já podemos começar a perceber a ligação que há entre os opostos “morte” e “vida” no Fédon. O texto parece, aliás, de inspiração Heraclítica (para Heráclito, a harmonia nasce do conflito entre opostos), pois há sempre um jogo subterrâneo entre diversos opostos inseparáveis e complementares como o Yin e o Yang percorrendo todo o diálogo como pano de fundo: desregramento e temperança, Apolo e Dioniso, permanente e perecível, homem e Deus, corpo e alma, morte e vida etc.

Mas aprofundemos mais a questão do filósofo como homem mais próximo da morte. O que isso significa? Que estado é esse que o distanciamento dos sentidos pode proporcionar? Uma maior despreocupação com o que os "não-filósofos" chamam de “real”, distanciando-se das ilusões que os sentidos nos trazem. O filósofo quer a verdade e a exatidão. Não se trata de não experimentar nada através dos sentidos, mas sim de não bastar a experiência IMEDIATA!

Nesse sentido, podemos voltar a Nietzsche e achar semelhanças. Um pensamento tão profundo como o do eterno retorno, por exemplo, não se obtém através da pura experiência imediata de algum sentido. Mesmo tendo ele ocorrido a Nietzsche ao ver uma formação rochosa singular numa caminhada. Requer um mínimo momento que seja de reflexão e afastamento do mundo sensível.

Mas e a questão da morte na "Genealogia da Moral"? Primeiramente, acho válido termos uma visão geral da obra, que trata de uma pesquisa de Nietzsche da origem de nossos preconceitos morais, questionando se a moral seria algo positivo ou negativo para o homem. Ou seja, não apenas preocupado com a origem da moral, mas também - e principalmente - com o valor da mesma.

Para trilhar este caminho, Nietzsche sugere o autoconhecimento. Primeiramente, histórico: como podemos nos chamar "homens do conhecimento" se não conhecemos nem a nós mesmos, aceitando a moral padrão dogmática que nos é ensinada sem questionamentos? Valores como "não-egoísmo", abnegação, compaixão, sacrifício (muito idealizados por Schopenhauer, inclusive) acabaram sendo aceitos como padrão de comportamento pela sociedade. Nietzsche, ao contrário, viu neles "o grande perigo para a humanidade". Pois a partir dessa vontade que se volta "contra a vida", estamos a um passo da grande tentação ao nada (como a budista), às beiras do niilismo. Esses valores chamados "bons" seriam a negação de nossos verdadeiros instintos.

A compaixão, por exemplo, tão praticada (na teoria) pelos sacerdotes religiosos, para Nietzsche é uma forma de "envenenar a ferida" em vez de curá-la: a vida é também dor, e a dor fortalece. Aliviar a dor de outro é, então, torná-lo mais fraco, dependente e com menor capacidade de vencer qualquer dor por si mesmo.

"E se no 'bom' houvesse um sintoma regressivo, como um perigo, uma sedução, um veneno, um narcótico, mediante o qual o presente vivesse como que às expensas do futuro? Talvez de maneira mais cômoda, menos perigosa, mas também num estilo menor, mais baixo?... De modo que precisamente a moral seria o perigo entre os perigos?..." (Prólogo, p. 13)

O homem "bom" é o que aceita passivamente o rebanho, que não luta por um futuro melhor, que aceita a posição cômoda em sua poltrona e assiste passivamente a TV se maravilhando com o controle remoto, os perigos dos filmes, engordando com os gastos cada vez menores de energia de seu corpo e a maior oferta e variedade de alimentos, aceitando as mesmices dos jornais e novelas (e, com isso, a aparência de impossibilidade de se mudar qualquer coisa). Variações desse estilo de vida: esportes radicais. Saltar de pára-quedas, bungee jumping etc. Não seriam formas de atenuar a saudade humana de algum RISCO na vida? Será que algum risco de MORTE nos é necessário?

Na primeira dissertação, Nietzsche trata da inversão dos valores "bem" e "mal". O bom, originalmente, foi o forte, que, justamente por sua força, criava e ditava valores (pode, inclusive ter ditado o nome das coisas, criando assim a linguagem, segundo o autor). Esses homens fortes, nobres (Nietzsche chama-os de nobres, mas não se trata de uma nobreza baseada em posses materiais, mas em aceitação de si mesmos, inclusive de sua vontade de potência), eram invejados pelos fracos, escravos, reativos. Mas os fracos, até mesmo por serem fracos, não os enfrentavam diretamente. Criaram, então, o "mal", designando os fortes como "maus", para viver melhor com suas limitações. Do mesmo jeito que ovelhas devem achar "más" as aves de rapina que as comem. O fraco distorceu o "bem", recriando-o, então, como o oposto do que faziam os fortes: aceitação, passividade, segurança... Os fracos seguiram o seu cansaço, seu medo, e a sua dificuldade de se relacionar consigo mesmo para criar, assim, a moral. E os sacerdotes criaram prêmios após a morte para estimular esse comportamento. Isso se tornou o "bem" que venceu na História e é aceito até hoje.

Na segunda dissertação, há um aprofundamento da questão da culpa e da má consciência, que surgem com esse padrão de moral cristão:

"Esse homem que, por falta de inimigos e resistências exteriores, cerrado numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes, impacientemente lacerou, perseguiu, corroeu, espicaçou, maltratou a si mesmo, esse animal que querem amansar, que se fere nas barras da própria jaula, esse ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em câmara de tortura, insegura e perigosa mata - esse tolo, esse prisioneiro presa da ânsia e do desespero tornou-se o inventor da má consciência." (Segunda Dissertação, p. 73)

É como se todos os instintos destruidores, criadores, ativos inerentes ao homem, pela falta de uso externo, se voltassem para dentro do próprio homem, como um transbordamento de energia não utilizada no exterior. Com isso, ocorre o que o autor chama de uma "interiorização do homem". E é aqui que quero explorar melhor a questão da morte, ou do risco da morte, como NECESSÁRIO para Nietzsche. Novamente, como para Sócrates, o homem com a capacidade de filosofar, se vê como mais próximo da morte.

Mais especificamente na visão de Nietzsche, a infinidade de meios sociais criados para nos proteger da morte, acabou por deixar o homem num estado de interiorização, que, em minha opinião, gera mais e mais medo da morte: se você volta toda a sua atenção para o seu interior, qualquer mínima alteração interna te afeta mais fortemente. Qualquer medo se torna maior e a idéia da morte como perda de si mesmo talvez pareça ainda mais tenebrosa. Quanto mais reforçamos as paredes e sistemas de segurança e de vigilância de um cofre, mais atenção damos ao que ele contém, e mais medo temos de perder seu conteúdo.

Isso explicaria porque vivemos numa sociedade onde brota a "síndrome do pânico", que consiste, resumidamente, num medo fortíssimo e sem causa lógica. Não seria justamente uma NECESSIDADE do corpo, da nossa "grande razão", de ter algum medo, alguma sensação de risco? Pergunto-me se haverá algum estudo sobre a incidência dessa síndrome nos praticantes de bungee jumping ou de qualquer esporte que envolva um risco mortal (na internet, não encontrei). Meu palpite é de que a incidência seria bem menor ou nenhuma.

Talvez o grande problema seja que nos falta aceitar, filosoficamente, a morte. Assim como o envelhecimento. Queremos fazer plásticas para parecermos jovens, tomar remédios para não envelhecer, pagar plano de saúde para não morrer... Os médicos mantém vivos com aparelhos pessoas com cada vez mais idade, inconscientes, sem a capacidade de falar, de ouvir, de ver, de comer, de tocar... Para quê? Por quê?

Não há em Nietzsche uma resposta para algum tipo de vida coletiva diferente da nossa sociedade, baseada em cerceamentos individuais e busca de paz e segurança. Para Nietzsche, qualquer certeza, aliás, é uma vontade iludida de fazer sentido. Mas, pelo menos, o texto nos faz repensar nossas certezas, olhar de uma nova perspectiva nossa vida. E só isso já basta para transformar. E isso é o que considero mais importante na filosofia.


BIBLIOGRAFIA:


NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

PLATÃO. Diálogos: O Banquete, Fédon, Sofista, Político. Os Pensadores. São Paulo: Abril cultural, 1972.


(Fabio Rocha)