Lacan

Lacan - Fabio Rocha


Lacan, considerado um dos mais importantes psicanalistas do século XX, propôs uma releitura da teoria freudiana, trazendo novas perspectivas e renovando o campo da psicanálise.


Retorno a Freud: A Reconstrução da Teoria


Um dos principais pontos de partida de Lacan foi o retorno a Freud. Ele considerava que a psicanálise havia se afastado dos princípios fundamentais propostos por Freud e defendia a necessidade de uma reconstrução teórica. Lacan resgatou conceitos como o inconsciente, o complexo de Édipo e a importância da sexualidade na constituição do sujeito. Sua abordagem teve como objetivo retomar a radicalidade e a potência revolucionária da teoria freudiana.


A Escuta para Lacan: A Importância da Palavra


Outro conceito central em Lacan é a escuta. Para ele, o analista deve acolher a palavra do analisando de forma atenta e cuidadosa, estando aberto àquilo que emerge do inconsciente. A escuta lacaniana é uma escuta diferenciada, que busca captar não apenas o conteúdo manifesto da fala, mas também os significantes que se articulam na cadeia discursiva do sujeito.


A Próxima Sessão: O Trabalho da Análise


Lacan introduziu o conceito de "próxima sessão", que se refere ao processo de continuidade da análise. Para ele, a análise não se limita ao espaço do consultório, mas se estende para além dele, atravessando a vida cotidiana do analisando. A próxima sessão é o momento em que o sujeito tem a oportunidade de dar prosseguimento ao trabalho analítico, de refletir sobre o que foi discutido e de lidar com as questões que emergiram.


O Que Quer Lacan: A Busca do Desejo


Uma pergunta recorrente na obra de Lacan é "o que quer Lacan?". Para ele, o desejo é central na constituição do sujeito e na psicanálise. Lacan entende o desejo como uma falta fundamental que impulsiona o sujeito a buscar algo além do que é imediatamente dado. O desejo está relacionado à falta de completude do sujeito e à busca por um sentido e uma satisfação que nunca se realizam plenamente.


Sujeito e Assujeitamento: A Construção Identitária


Lacan propôs uma concepção do sujeito como sendo dividido e descentrado. Para ele, o sujeito não é uma entidade unitária e estável, mas sim uma construção em constante movimento. Além disso, Lacan abordou o assujeitamento, ou seja, o processo pelo qual o sujeito se submete às demandas e às normas sociais, internalizando as identificações e os ideais do outro. Nesse sentido, o sujeito se constitui através de um constante jogo de reconhecimento e alienação, buscando se adequar aos padrões e às expectativas estabelecidas pela sociedade.


Ao considerar o sujeito como dividido, Lacan destacou a presença do inconsciente e a existência de conteúdos reprimidos e recalcados que influenciam o funcionamento psíquico. O inconsciente é o lugar das pulsões e dos desejos reprimidos, que buscam se manifestar através de sintomas e lapsos. Essa compreensão do sujeito como dividido também está relacionada à ideia de falta, uma vez que o sujeito é marcado pela incompletude e pela busca constante de satisfação.


No processo de assujeitamento, o sujeito internaliza as normas e os valores da sociedade, adotando determinados papéis e identificações que influenciam sua forma de ser e de se relacionar com o mundo. No entanto, Lacan questionou a ideia de que o sujeito poderia alcançar uma identidade plenamente coerente e estável, destacando a presença de contradições e de um caráter inconsciente e simbólico na construção identitária.


Em suma, a concepção de sujeito e assujeitamento em Lacan aponta para a complexidade da construção identitária e para a presença do inconsciente e do simbólico na constituição subjetiva. O sujeito é uma entidade em constante movimento, marcada pela falta e pela divisão, e sua relação com o outro e com as normas sociais influencia sua forma de ser e de se posicionar no mundo. A análise lacaniana busca trazer à tona essas dimensões inconscientes e simbólicas, possibilitando ao sujeito uma reflexão crítica sobre sua identidade e um movimento em direção à autonomia e à transformação subjetiva.


Críticas à Psicanálise: A Relação com Outros Campos do Conhecimento


A obra de Lacan também recebeu críticas e suscitou debates dentro e fora da psicanálise. Alguns questionaram a linguagem complexa e hermética utilizada por Lacan, o que dificultava o acesso e a compreensão de suas ideias por parte de muitos leitores. Além disso, houve críticas em relação à suposta falta de empirismo de sua abordagem e à ênfase dada ao simbólico e ao estrutural em detrimento do aspecto individual e das experiências concretas dos pacientes.


Significante e Significado: A Dimensão Linguística do Inconsciente


Lacan introduziu o conceito de significante e significado como elementos fundamentais para a compreensão do funcionamento do inconsciente. O significante é um termo linguístico que representa uma unidade de significação, enquanto o significado é o conteúdo simbólico atribuído a esse termo (interpretação pessoal). Para Lacan, é na cadeia de significantes que o inconsciente se manifesta, revelando as marcas e os conflitos que afetam o sujeito.


Primazia da Metáfora e Metonímia: A Lógica do Inconsciente


Outro conceito importante na teoria lacaniana é a primazia da metáfora e da metonímia. A metáfora é uma figura de linguagem que consiste na substituição de um termo por outro, enquanto a metonímia é uma figura de linguagem que se baseia na associação de termos relacionados. Lacan argumentou que o inconsciente opera por meio desses processos, revelando as transformações e as associações que ocorrem nas representações simbólicas.


Cadeia de Significados: A Construção do Sentido


Lacan propôs a ideia de que o sentido não está dado previamente, mas é construído por meio da cadeia de significantes. Ele argumentava que os significantes se relacionam uns com os outros de maneira contínua, criando um fluxo de significados que moldam nossa experiência e nossa subjetividade. A compreensão do sentido, para Lacan, depende da capacidade de perceber as articulações e os deslocamentos que ocorrem nessa cadeia de significantes. as identificações e os ideais do outro.


A Abordagem do Real, Simbólico e Imaginário na Psicanálise de Lacan


Jacques Lacan, renomado psicanalista do século XX, trouxe importantes contribuições para a compreensão do funcionamento psíquico, introduzindo os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário em sua teoria. Esses três registros são fundamentais para a compreensão da subjetividade e da constituição do sujeito.


O Real é um dos pilares da teoria lacaniana e representa o domínio do impossível, do irrepresentável. Trata-se de uma dimensão que escapa à simbolização e à linguagem, não podendo ser plenamente conhecida ou representada. O Real se manifesta por meio de traumas, angústias e momentos de ruptura, que confrontam o sujeito com a falta e a incompletude.


O Simbólico, por sua vez, é o registro da linguagem e da cultura. É nesse registro que os significantes, unidades de significação, são articulados para formar cadeias de sentido. O Simbólico é o espaço onde a subjetividade é moldada e constituída pela entrada do sujeito na ordem simbólica. É através do acesso à linguagem e à cultura que o sujeito se torna sujeito desejante, inserido em um campo de relações e significados compartilhados.


O Imaginário, terceiro registro proposto por Lacan, refere-se ao mundo das imagens, das representações visuais e das identificações. Nesse registro, o sujeito se percebe como um eu unificado e coerente, construindo uma imagem idealizada de si mesmo. O Imaginário está relacionado à formação das identidades e das relações de identificação com outros indivíduos e com imagens idealizadas, como a imagem do corpo ideal, por exemplo.


Esses três registros não são independentes, mas estão interconectados e influenciam-se mutuamente. O Simbólico e o Imaginário são mediadores entre o sujeito e o Real, buscando estabelecer uma relação com o impossível, seja através da simbolização, da criação de imagens ou da elaboração de significados.


Para Lacan, a saúde psíquica envolve a capacidade do sujeito de lidar com a falta e a incompletude do Real, sem sucumbir à alienação imaginária ou à submissão excessiva ao Simbólico. A análise, nesse sentido, tem como objetivo possibilitar ao sujeito uma relação mais autêntica com o Real, permitindo uma transformação subjetiva e o acesso a uma nova maneira de lidar com suas questões e desejos.


Em síntese, a abordagem do Real, Simbólico e Imaginário na teoria lacaniana proporciona um olhar complexo e profundo sobre a subjetividade humana. Esses três registros são elementos-chave para a compreensão da constituição do sujeito, das relações de poder e da dinâmica do inconsciente. A análise lacaniana propõe o desvelamento desses registros e a possibilidade de transformação subjetiva, oferecendo um caminho para o sujeito lidar com as suas questões mais íntimas e encontrar sua própria verdade.


Outros conceitos em Lacan:


O estágio do espelho é um conceito fundamental em Lacan. Ele descreve um momento crucial no desenvolvimento humano em que a criança reconhece sua imagem refletida no espelho. Esse reconhecimento é um passo importante na formação da identidade, em que a criança percebe-se como um ser separado do ambiente.

O estádio (ou estágio) do espelho é elencado em três momentos: O primeiro momento é caracterizado pelo estranhamento da própria imagem; o segundo é caracterizado pela fase de transitoriedade; o terceiro é marcado pelo reconhecimento do próprio reflexo, este produzido pelo espelho ou pelos semelhantes humanos.


O espelho e o imaginário estão intimamente relacionados. Através da imagem especular, o sujeito constrói uma identidade baseada na aparência física e na percepção dos outros. O espelho desempenha um papel central na constituição do imaginário, que é um domínio em que as imagens e as fantasias são formadas.

No entanto, nem sempre essa formação da identidade ocorre de maneira saudável. O espelho patológico refere-se a distorções na formação do eu, resultando em uma imagem negativa de si mesmo. Essas distorções podem levar a distúrbios psicológicos e dificuldades na construção saudável da identidade.

A alienação imaginária é um processo pelo qual o sujeito se identifica com uma imagem idealizada, muitas vezes imposta pelo outro. Isso pode levar à perda de autonomia e à busca contínua de validação externa.


A referência do sujeito explora como o sujeito busca reconhecimento e identificação através do outro, situando-se em relação aos significados e valores estabelecidos pela sociedade.

Lacan também enfatiza a importância da linguagem na constituição do inconsciente. O inconsciente é estruturado como uma linguagem, onde os desejos e os conteúdos reprimidos são expressos por meio de símbolos e metáforas. A ordem simbólica é o domínio onde a linguagem e os sistemas de significação estruturam a realidade e regulam as relações sociais. Ele utiliza as formações do inconsciente estudadas por Freud, destacando a dimensão simbólica. Realiza o esforço de uma formalização que ao mesmo tempo começa pensar o particular do sintoma. Traz essas formações do inconsciente como um meio de expressão que coloca a palavra em movimento. Uma das marcas de Lacan em seu retorno a Freud é o estabelecimento dessa estrutura para o inconsciente em que a nova abordagem permite.

O nome do pai representa a função paterna e sua influência na organização do sujeito. Ele desempenha um papel na interdição do incesto e na entrada do sujeito na ordem simbólica.

O significado prévio molda as experiências e interpretações do sujeito, sendo influenciado pela cultura, pela linguagem e pelas estruturas sociais.

Outros temas abordados por Lacan incluem o registro do imaginário, que é um domínio onde as imagens e as fantasias são formadas; a polifonia do discurso, que se refere à multiplicidade de vozes e significados presentes na linguagem; a noção de distância, que influencia a relação do sujeito com o mundo; o eu e o sujeito, explorando a relação entre o eu individual e o sujeito do inconsciente; o espaço da palavra, que é um campo de expressão e comunicação; a fantasia, como uma forma de lidar com os desejos inconscientes;

O grande outro é um conceito que representa a dimensão do outro como uma instância simbólica e a influência que exerce sobre o sujeito. Já o pequeno outro refere-se à figura do outro na interação cotidiana, na relação interpessoal.

Um aspecto importante na teoria de Lacan é o nó borromeano que representa a articulação dos registros simbólico (S), imaginário (I) e real (R).



Imaginário e simbólico são dois conceitos importantes na teoria de Jacques Lacan sobre a psicanálise. Vamos começar com o imaginário.


Imaginário significa tudo o que nós conseguimos ver e imaginar com a nossa mente. É como criar imagens em nossa cabeça, como quando pensamos em algo ou sonhamos acordados. O imaginário está relacionado com a nossa capacidade de criar e visualizar coisas que não estão presentes fisicamente. É como se fosse um mundo de fantasia dentro de nós.


Agora, vamos falar sobre o simbólico. O simbólico está relacionado com as palavras, os símbolos e as regras que usamos para nos comunicar. Quando falamos, escrevemos ou até mesmo usamos gestos, estamos usando símbolos para expressar nossos pensamentos e sentimentos. Por exemplo, quando falamos "gato", essa palavra é um símbolo que representa um animal de estimação com quatro patas e bigodes.


Então, a diferença entre o imaginário e o simbólico é que o imaginário está mais relacionado com a nossa imaginação e com as imagens que criamos em nossa mente, enquanto o simbólico está mais relacionado com as palavras e os símbolos que usamos para nos comunicar com os outros.


Para resumir, o imaginário é o mundo das imagens em nossa mente, como sonhos e fantasias, e o simbólico é o mundo das palavras e símbolos que usamos para nos comunicar. Ambos são muito importantes para entender como nossa mente funciona e como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor.


Esses registros são interdependentes e sua estabilidade é essencial para a integração psíquica:


(clique para ampliar)

Psicanálise com crianças

Psicanálise com crianças - Fabio Rocha


A psicanálise com crianças é uma abordagem terapêutica que tem como objetivo ajudar as crianças a compreender e resolver problemas emocionais e comportamentais, a fim de promover o seu desenvolvimento saudável. Apesar de Freud não acreditar na aplicação da psicanálise em crianças, esta abordagem tem suas raízes na teoria da dinâmica da mente humana desenvolvida por Sigmund Freud e foi aperfeiçoada e expandida por sua filha, Anna Freud, e por Melanie Klein. Outra figura de destaque foi Winnicott. E todos somos um reflexo de nossa infância, então é um momento muito importante para a psicanálise e para a clínica. 


Anna Freud, filha de Sigmund Freud, desenvolveu uma teoria da psicologia infantil. Ela enfatizou o papel da defesa como uma forma de proteger a criança de estímulos emocionais dolorosos. Anna Freud acreditava que as crianças aprendiam a lidar com seus medos e desejos através de defesas, como negação, dissociação e repressão. Ela também acreditava que a terapia infantil deveria ser baseada na compreensão da dinâmica da mente infantil, com uma abordagem centrada na criança e na sua relação com o terapeuta. A criança passa a ser olhada como uma psique em desenvolvimento e, mesmo não usando o ferramental em clínica com crianças, surge o debate da psicanálise em escolas (aspecto pedagógico). Ainda é muito citada em cursos de Pedagogia.


Já Melanie Klein, que foi analisada por Ferenczi, influenciada por Freud, teve uma abordagem diferenciada e enfatizou o papel das relações precoces e conflitos internos na formação da personalidade da criança. Ela acreditava que as crianças tem desejos e medos inconscientes que são influenciados por suas relações precoces, como o relacionamento com a mãe. E que poderiam sim ser tratadas diretamente com psicanálise, diferentemente de Freud.

De acordo com a teoria de Melanie Klein, as crianças precisam resolver conflitos internos, como a tensão entre o amor e o ódio, para se desenvolver de forma saudável. Um lado ruim e um bom. O seio da mãe, bom ou ruim (posição esquizoparanóide). O bebê acha que o seio é parte dela, não há ainda um conceito de interno e externo do eu.  Também deixa claro que há uma ambiguidade entre este “bom” e “mau” nos mesmos objetos, além de não haver uma separação clara entre o objeto e o bebê.

Acolhendo vários conceitos de Ferenczi, também teve uma abordagem com a importância maior do brincar, da ludicidade e da arte, e menos o aspecto pedagógico de sua antecessora. As teorias de Melanie Klein acompanham a evolução do papel da criança na sociedade (antes, não deveria opinar, etc.). Desenvolveu conceitos importantes, usados até hoje na clínica, também em adultos.


Para Donald Winnicott, a mãe suficientemente boa ou não suficientemente boa está muito mais ligada ao ambiente, ao físico em torno da criança. A mãe como ambiente inicial da criança. O peito da mãe e o colo como ambiente e extensão de si mesmo, até que ela comece a desenvolver sua independência. Relação objetal da criança com o ambiente que vai variando com a idade. A escola e os ambientes fora de casa (tal qual o consultório da psicanálise) reproduzindo o ambiente da casa.


     A psicanálise com crianças é uma abordagem importante na compreensão do desenvolvimento infantil e no tratamento de problemas emocionais e comportamentais na infância. A base que une os três é a presença da angústia na vida da criança. A terapia pode ser realizada individualmente ou em grupo e pode envolver a utilização de jogos, brincadeiras e desenhos para ajudar a criança, através da fantasia, a expressar melhor seus pensamentos e sentimentos (para que o psicanalista possa perceber e analisar sua angústia). A terapia pode ser eficaz para tratar problemas como ansiedade, tristeza, raiva, medo e comportamentos problemáticos, bem como para ajudar a criança a desenvolver habilidades de comunicação, resolução de problemas e relacionamentos mais saudáveis.

EPICURO E NIETZSCHE: FILOSOFIA PARA A VIDA

EPICURO E NIETZSCHE: FILOSOFIA PARA A VIDA (Fabio Rocha)




Esboço do trabalho:

- Introdução
- Capítulo 1 – Vida de Epicuro e de Nietzsche
- Capítulo 2 – Amor fati e felicidade epicúrea
- Capítulo 3 – Negação do além-mundo
- Capítulo 4 – A morte
- Capítulo 5 - O pensamento de Epicuro e Nietzsche na realidade contemporânea



“[...] Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.”

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), in Odes de Ricardo Reis, trecho final de “Não Só”


“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das coisas”...
“Sentido íntimo do universo”...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensinar)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.”

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), in “O Guardador de Rebanhos” - Poema V



Introdução

Há um fragmento de Epicuro que continua absolutamente atual que diz:

“Devemos começar a filosofar desde a mocidade, porém sem deixarmos de o fazer, cansados, na velhice. Para realizar algo em prol da saúde espiritual, ninguém é demasiado moço nem muito velho; mas quem, porventura, supuser que, para filosofar, está moço ou velho, em demasia, dirá do mesmo modo que o instante exato da sua felicidade ainda não chegou ou já se foi.” (1)

O homem contemporâneo está distante dessa compreensão. Vivemos a procura de algo que não sabemos bem o que é, aceitando a possibilidade de ser uma “felicidade”. Não a felicidade como era vista por Epicuro, mas uma felicidade inatingível, que buscamos através de conquistas a serem alcançadas: fama, dinheiro, ou qualquer coisa que ainda não temos, futura, difícil, e, se pensarmos bem, quase sempre inalcançável por estar sempre distante do momento presente. O lugar do desejo real de cada indivíduo (ponto chave da teoria psicanalítica de Freud) é preenchido com o que nos mostra a mídia, a família, os padrões de comportamento ou até as empresas com suas propagandas de produtos. Além disso, vivemos numa época onde o senso crítico é raro e o homem vive cercado de medos, que muitas vezes os levam ao refúgio das religiões tradicionais e seus dogmas inquestionáveis. Este cenário mostra a importância de repensarmos hoje, com a ajuda da filosofia de Epicuro e de Nietzsche, nosso modo de viver.


CAP. 1 – Vida de Epicuro e de Nietzsche

Epicuro nasceu na ilha de Samos em 341 a.C., embora fosse, por direito, cidadão de Atenas, já que seu pai, Neócles, emigrou em 352 a.C. para colonizar a ilha de Samos. Lá, doze anos mais tarde, nasceria Epicuro. Ele foi o segundo dos quatro filhos de Neócles, e aquele que o ajudava no trabalho de mestre-escola.
Epicuro viveu já no período de decadência da pólis grega. A conquista macedônica enfraquecia, pouco a pouco, os ideais de coletividade e de cidadania. Assim, toda a filosofia de Epicuro, volta-se para a autarquia (autarkeía) e para a busca de uma felicidade (eudaimonia) baseada muito mais no indivíduo do que na coletividade.
Outro ponto importante a ser destacado é que o elitismo do conhecimento também sofreu um abalo com a perda da independência grega, o que acabou proporcionando uma concepção mais igualitária do saber. Epicuro aceitava em seu jardim a todos: homens, mulheres ou escravos. Assim, inaugura uma ética igualitária, acessível à inteligência de todos os homens capazes de se abrir para uma nova forma de ver a realidade, sem superstições, dogmas ou preconceitos. Ele escreve no final da carta a seu discípulo Heródoto: “Todos aqueles, contudo, que ainda não se contam entre os perfeitos, podem, com o auxilio deste esboço, efetuar em pouquíssimo tempo, mesmo sem aula oral, a jornada através das questões capitais, decisivas, para chegarem à obtenção da sua paz de alma e de espírito.”(2) O acesso é dado a todos, mas não são muitos os que conseguem chegar ao final do percurso.
Epicuro foi influenciado pela física atomística de Leucipo e Demócrito e a ética hedonista dos Sofistas e Cirenaicos, tendo em comum com estes, o prazer como bem maior, mas criticando o prazer sem controle, desmedido, da ética deles. Sua tentativa de compreender a natureza (physis) se mistura à criação de uma ética, um éthos para o homem, ou seja, sua condição plena de realização. Do atomismo, por exemplo, pode ver o homem como microcosmos, parte de um kósmos maior e em equilíbrio. Este mesmo equilíbrio, no interior do homem, geraria o prazer, o sumo bem, tranqüilidade, liberdade (eleutheria) e felicidade (eudaimonia). A busca desse equilíbrio se dava a partir da eustatheía (boa disposição), aponía (ausência de dor) e ataraxía (ausência de perturbações na alma). É interessante notar que Epicuro sofreu de crises renais por toda a vida e o que ele afirmava sobre suportar a dor era experiência própria. Além disso, viveu numa Grécia invadida e dominada. Esses fatores podem ter sido decisivos para a sua visão de felicidade baseada nas situações mais simples e apesar de dor e sofrimentos.
O jardim de Epicuro era o local de um nova prática de existência comunitária entre amigos verdadeiros. Seus moradores cultivavam hortas, na busca da auto-suficiência. Segundo Sêneca, havia a seguinte inscrição na entrada do jardim: “Hóspede, aqui serás feliz; o soberano bem aqui é o prazer.” Como indicamos acima, devemos destacar que Epicuro não praticava um hedonismo vulgar. Para ele, um corpo pode ficar saturado de prazer quando tem pão e água: “[...] Para nós, prazer significa: não ter dores no âmbito físico e não sentir falta de serenidade no âmbito da alma. Pois uma vida cheia de ventura não é formada por uma sequência infinita de bebedeiras e banquetes [...]”(3) . Assim, a ética de Epicuro desloca o local do filósofo da ágora, onde se discursava para toda a cidade, para o jardim, onde conversava com amigos. Numa época em que pátria, cidadania e coletividade perdiam o sentido, Epicuro coloca o novo lugar do sábio no jardim, mais recolhido, com amigos escolhidos apenas: “De todos os bens que a sabedoria nos proporciona para a felicidade de toda nossa vida, o da amizade é de longe o maior.”(4) Assim, a amizade passa a ser o vínculo primordial na comunidade agora sem concidadãos e sem compatriotas. É interessante notar também que o jardim não era apenas um centro de debates e reflexões, como a Academia de Platão ou o Liceu de Aristóteles.
Em suma, a filosofia epicúrea tem como base quatro fundamentos que trazem uma forma de viver da melhor maneira possível, com menos medos e perturbações na alma, o chamado tetraphármakon:
1 – Não há nada a temer quanto aos Deuses (que não interferem na vida humana de um modo geral)
2 – Não há nada a temer quanto à morte (quando a morte chega, cessa a existência)
3 – O prazer é fácil de se obter (se for difícil, não é necessário)
4 – A dor é suportável (se for insuportável, não dura muito)
Epicuro passou por extrema dor física por causa das crises renais durante toda a sua vida. Seu pensamento sobre a dor é baseado em sua própria experiência.
Ele teve uma vastíssima produção, mas, infelizmente, muito de sua obra se perdeu.


Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, em Röcken, na Saxônia. Seus dois avôs foram pastores luteranos, assim como seu pai, que era o pastor local, seguindo a tradição familiar. Em 1856, apaixonado por música e poesia, com apenas doze anos de idade, Nietzsche já apresenta fortes dores de cabeça e nos olhos que, na época, lhe ocasionaram uma licença da escola (ginásio Naumburg). Em 1861, aos 17 anos, começa a se afastar da religião tradicional da família. Nietzsche passa a se interessar por filologia e filosofia (grega, inclusive).
Desde a infância, Nietzsche sofre com sua saúde e desde cedo também não aceita o caráter dogmático da religião de seus pais e avós. Abandonando, inclusive, a faculdade de teologia em 1865.
Na época em que viveu, a Europa passava por uma fase de grande repressão sexual e costumes e normas rígidas de conduta, centralizadas num modelo patriarcal. Esse ambiente proporciona o surgimento, inclusive, das primeiras pacientes de Freud (1856-1939), no campo da psicanálise.
Se notarmos bem, um ambiente repressivo, um momento histórico de rompimento de paradigmas, e males físicos desde cedo em suas vidas deixam Nietzsche e Epicuro com uma trajetória de vida particularmente parecida. O que talvez acabe por aproximar as suas filosofias. “Cada vez mais olho para os filósofos gregos como modelos para o modo de vida a ser alcançado.” (carta a Gersdorff, 26/5/1876). Assim como o filósofo do Jardim, Nietzsche busca no pensamento a condição para uma vida mais harmoniosa. Em 1880, escreve para seu médico: “Minha existência é um fardo terrível: há muito teria me livrado dele se não fizesse os mais esclarecedores experimentos, no campo moral-espiritual, precisamente nesse estado de sofrimento e quase absoluta renúncia.” (carta ao médico Otto Eisler, início de 1880), corroborando o sofrimento físico por que passou durante toda a sua vida.


Nietzsche fala especificamente sobre Epicuro em dois momentos. No aforismo 45 do “A gaia ciência”, destaca justamente o sofrimento como instrumento de seu belo pensamento sereno:

“Epicuro. – Sim, orgulho-me de sentir o caráter de Epicuro diferentemente de qualquer outro, talvez, e de fruir a felicidade vesperal da Antiguidade em tudo que dele ouço e leio: - vejo o seu olhar que se estende por um mar imenso e esbranquiçado, para além das falésias sobre as quais repousa o sol, enquanto pequenos e grandes animais brincam à sua luz, seguros e tranqüilos como essa luz e aquele mesmo olhar. Apenas um ser continuamente sofredor pôde inventar uma tal felicidade, a felicidade de um olhar ante o qual o mar da existência sossegou , e que agora não se farte de lhe contemplar a superfície, essa delicada, matizada, fremente pele de mar: nunca houve uma tal modéstia na volúpia.”(5)

E no aforismo 200 de “Além do bem e do mal”, Nietzsche olha o mesmo Epicuro de um novo ângulo (método de pensamento, aliás, que ele defende em qualquer investigação, não podendo ser caracterizado apressadamente como contradição). A vontade de serenidade agora é vista como debilidade:

“O homem de uma era de dissolução e de mestiçagem confusa, que leva no corpo uma herança de uma ascendência múltipla, isso é, impulsos e escalas de valor mais que contraditórios, que lutam entre si e raramente se dão trégua – esse homem das culturas tardias e das luzes veladas será, por via de regra, um homem bem fraco: sua aspiração mais profunda é que um dia tenha fim a guerra que ele é; a felicidade lhe parece, de acordo com uma medicina e uma maneira de pensar tranquilizante (epicúrea ou cristã, por exemplo), sobretudo a felicidade do repouso, da não-perturbação, da saciedade, da unidade enfim alcançada [...].”(6)

Aproxima, assim, nesta passagem, o pensamento epicúreo do cristianismo, sem perceber, talvez, que a filosofia de Epicuro enaltece o prazer e leva a um aproveitamento melhor da vitalidade e não um arrefecimento da vida (como Nietzsche percebe no cristianismo).


CAP. 2 – Amor fati e felicidade epicúrea

A felicidade epicúrea tem como base o equilíbrio e a harmonia como a da natureza, sempre considerando a medida racional: “Por isso eu afirmo que o prazer é a essência duma vida venturosa. A ele conhecemos como nosso primeiro bem inato, por ele nos deixamos guiar em todos os nossos anelos e abstenções, e por ele nos governamos, medindo todos os outros bens pela sua norma. E, justamente porque o prazer é o nosso primeiro bem, aquele que recebemos pela própria natureza, não zelamos pela obtenção de qualquer prazer, mas deixamos de lado muitos, dos quais finalmente poderia resultar-nos um mal-estar maior ainda. [...]”(7) .
Para Epicuro, o sábio tem a capacidade de viver de acordo com a natureza (katà phýsin): “Eu, que dedico incessantemente minhas energias à investigação da natureza, e através desse modo de viver exerço principalmente o meu equilíbrio.”(8) . Assim, a filosofia de Epicuro, como ele mesmo definiu, é um saber para a vida (tehné tis perì tòn bíon), onde o mais sábio é o mais tranquilo, mais livre e mais feliz. E esse equilíbrio é fonte de prazer. Trata-se de uma filosofia baseada na serenidade e sensatez: “No principio de tudo, porém, encontra-se a razão, o maior dos nossos bens. Dela resultam por si só todas as outras virtudes; na verdade, é mais valiosa ainda que a filosofia, porque nos ensina que é impossível viver prazerosamente, sem que se viva uma vida cheia de razão [...]”(9) .
Sua ética fundamenta-se na autárkeia de cada indivíduo, ou seja, ações baseadas na compreensão da natureza ao invés de reações a tudo o que não é natural nem necessário ao indivíduo (incluindo aí normas e valores da sociedade). Epicuro tenta aqui nos libertar dos grilhões dos padrões da maioria, da multidão que posteriormente Nietzsche vem a chamar de “rebanho”, e que Heráclito bem antes dele já chama de hoi poloi (os muitos). O homem sábio, o homem feliz de Epicuro, ao tentar compreender a natureza e seus fenômenos, percebendo seu equilíbrio cheio de conflitos e amores, pode conseguir dominar seus desejos, paixões e ações tendo como base apenas a si mesmo, sem se prender a nenhum dogma ou padrão externo que não lhe sirva. Sem se forçar a aceitar qualquer forma de agir como melhor ou correta, baseando-se apenas no número de homens que assim age e pensa. A vida feliz (makários zen) resulta desse agir livre.
No aforismo 276 da Gaia Ciência, Nietzsche define: “Amor fati [amor ao destino]: seja este doravante, o meu amor. Não quero fazer guerra ao feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!"”(10) Assim, como visão trágica de vida, o amor fati é uma postura de amar o acaso e um dizer sim à vida como um todo, não a separando em coisas boas (a serem aproveitadas) e ruins (a serem corrigidas). Tudo o que deveria ser “corrigido” ou “consertado” não pertence ao pathos da tragédia, não pertence ao modo de perceber tragicamente o todo. Amor fati é amar tudo que foi, é, e será, sem excluir nada. Para quem vê o mundo através do amor fati, nada é um defeito na existência. Esta visão de partes do todo a serem consertadas como defeito deriva do cientificismo, que invoca a postura de colocar o homem como controlador, explorador e aprimorador da natureza.
Não se trata de resignação, de aceitar tudo (até os “erros”) passivamente. É uma nova perspectiva, difícil de ser percebida por nós, tão acostumados a divisão de tudo entre bem e mal, acerto e erro.
O próprio Nietzsche liga a resignação à felicidade dos fracos no primeiro aforismo de “O Anticristo”: “[...] ficávamos o mais longe possível da felicidade dos fracotes, da ‘resignação’...”(11) Incapaz de se ver como ativo e criador no mundo, o que resta ao fraco é resignar-se com o que aparece (mesmo achando errado ou injusto), esperando, algumas vezes, uma recompensa futura por este sofrimento (nem que seja após a morte). Suportar, como o camelo das três transformações de “Assim falou Zaratustra”, o peso que lhe é imposto e ainda orgulhar-se dele. Isso está longe do Amor Fati de Nietzsche.
O resignado pensa que o mundo e a vida tem defeitos a serem corrigidos, mas se vê incapaz de consertá-los, e os aceita, triste. O amor fati é afirmar a vida como ela é, querendo-a totalmente em todas as suas expressões e formas, de forma alegre e firme.
Na época de Epicuro, essa visão do homem intervencionista na natureza não existia. Sua filosofia buscava a compreensão e não a intervenção na natureza. O homem devia melhorar sua vida ao estudar a natureza, e não corrigir a natureza para melhorar sua vida. Assim, penso que podemos dizer que o esforço que temos que fazer hoje para conseguir perceber a vida através do amor fati, era natural para os gregos em geral. E talvez mais natural ainda em Epicuro, que tem toda a sua filosofia voltada para a felicidade e para o que está próximo ao invés do distante: “Nada é suficiente para quem julga o suficiente demasiadamente pouco.”(12)


CAP. 3 – Negação do além-mundo

Este é outro ponto onde os pensamentos de Nietzsche e Epicuro parecem se aproximar, ao dar toda a importância para o momento presente, o aqui e agora, e minimizar a influência de deuses ou de qualquer outro possível aspecto metafísico na vida.
Epicuro fundamenta seus estudos na physis, a partir da observação da natureza: “Prefiro proclamar abertamente aos homens, baseando-me no meu conhecimento da natureza, aquilo que lhes seja útil, ainda que ninguém o compreenda, a dar, sob caloroso aplauso da multidão, o meu acordo em tolices.”(13) Neste ponto o Epicurismo se iguala à Filosofia imanente do Estoicismo, de sua lei ética que tem como base a busca da felicidade, negação da metafísica e de qualquer possibilidade de transcendência fora da imanência. Sobre os Deuses e sua possível influência em nosso mundo, complementa Epicuro: “É sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar.”(14) , vendo o homem com um papel mais ativo no mundo.
Sobre temer a influência dos deuses na vida humana, Epicuro diz: “Nada adianta construirmos nossa segurança perante os homens, enquanto os acontecimentos no céu e na terra, isto é, no universo infinito, possam causar-nos algum receio.”(15) e “[...] Pois os deuses existem, já que nós somos, evidentemente, capazes de reconhecê-los. Apenas não são como a grande multidão os imagina; pois, assim como eles pensam que os deuses sejam, estes não o são, e não é ímpio o homem que nega o conceito que a massa do povo faz dos deuses, mas sim aquele que tenta imaginar os deuses em conformidade com o conceito popular. O que a multidão declara a respeito dos deuses não corresponde, certamente, à verdadeira compreensão divina, mas apenas a falsas conjeturas. Desse modo, ela considera como providência divina tudo o que acontece de mal para o perverso ou aquilo que beneficia o bom. A multidão estranha tudo que possua uma natureza diferente de sua própria, e assim apenas admite deuses que lhe sejam semelhantes.”(16) Podemos notar que Epicuro critica o conceito de “deuses julgadores”, que dão recompensas para os “bons” e castigos para os “maus” homens (conceito utilizado ainda hoje em muitas religiões). Penso ser válido reforçar aqui a ideia de que Epicuro não nega a existência de deuses, mas sim afirma um afastamento divino em relação às questões humanas. E desestimula toda e qualquer religião como intermediária entre o homem e o sagrado (da mesma forma que Nietzsche, aliás, que preserva em sua filosofia o sagrado relativamente à terra, à vida). O contexto histórico pode ter tido importância nessa sua postura epicúrea, pois a negação da existência divina seria vista como desrespeito aos deuses, o que era considerado crime na Grécia. O próprio Sócrates teve esta como uma de suas acusações, quando foi julgado e condenado.
Em Nietzsche, não é difícil encontrar passagens sobre a importância da imanência e desvalorização de qualquer mundo supra-sensível. Sua crítica à metafísica combate tanto a teoria das ideias socrático-platônicas, quanto o que, segundo ele, surgiu dela: o cristianismo (que ele chamou de “platonismo para o povo”).
Segundo Nietzsche, o cristianismo considera nosso mundo um vale de lágrimas, em oposição ao que há no além, o “mundo verdadeiro”, a felicidade eterna. Assim, olhando a partir deste outro mundo, “autêntico e verdadeiro”, o terrestre, o sensível, o corpo só pode ser visto como o provisório, o inautêntico e o aparente. Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de "um platonismo para o povo", de uma vulgarização da metafísica, que é preciso ser desmistificada. O cristianismo seria a forma elaborada da perversão dos instintos do platonismo, com dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escrava fugir da vida, da luta, da dor, apoiando-se na resignação e na renúncia, considerando-as virtudes. Para Nietzsche, os escravos e os vencidos da vida são os inventores do além para compensar a sua miséria. Inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes, forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo, criaram a ficção do pecado porque não tinham possibilidade de participar das alegrias e da plena satisfação dos instintos da própria vida: “O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso – ele vive nele, ele é ele. [...]”(17)


CAP. 4 – A morte

No seu Zaratustra, Nietzsche mostra o que pensa da sobrevivência da alma após a morte. Quando o funâmbulo tem uma queda mortal, ele lhe diz: “[...] não existe o diabo nem o inferno. A tua alma estará morta ainda mais depressa do que o teu corpo; portanto, não receies nada!”(18) E é justamente esta a filosofia de Epicuro, para não se temer a morte: “A morte nada é para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que não possui mais sentimentos, não nos importa.”(19) . Para ele, a alma é um princípio corpóreo, ligado às sensações e aos sentidos, e não haveria sentido em pensá-la possível com o fim do corpo: “[...] a alma contém em si a causa principal de nossa percepção pelos sentidos [...]”(20) “Quando a massa total dos átomos do corpo se dissolve, então também a alma se dispersa [...].”(21) A idéia de alma eterna deriva de um mito órfico, que, segundo alguns, Platão aceita (não quero aprofundar esta questão aqui, apenas registrar que há controvérsias) e que, posteriormente, o cristianismo usará como base de sua doutrina. Epicuro também fala belamente da morte na carta a Meneceu:

“Além disso, acostuma-te à ideia de que a morte, para nós, é um nada. Todo bem e todo mal residem na faculdade de sentir; a morte, porém, é a privação desse sentimento. Assim, o conhecimento de que a morte nada é torna deliciosa a nossa vida efêmera. Evidentemente, esse saber não modifica o limite temporal da nossa vida, contudo livra-nos do desejo de ser imortais, pois para quem ficou ciente de que nada de terrível existe na ausência de vida, nenhum terror pode haver no viver. Mas se alguém argumentar que não teme a morte por causa da pena que ela trará quando vier, mas sim porque o simples fato da sua vinda já lhe é doloroso, é um tolo; pois é doidice que algo que não nos cause receio quando acontecer, possa trazer-nos pena, durante a espera, pelo fato de ser esperado!
Assim a morte, o mais temível de todos os males, é para nós um nada: enquanto nós existirmos, não existirá ela, e quando ela chegar, nada mais seremos. Desse modo, a morte não toca nem os vivos nem os mortos, porque onde estão os primeiros não se encontra ela, e os últimos já não existem mais.
É verdade que a grande massa do povo evita a morte como o mais terrível dos males, mas deseja-a, por outro lado, como se fosse o descanso das labutas da vida. O sábio, porém, nem nega a vida nem tem temores de não mais viver, pois aquela não lhe é repugnante, e ele não considera o não-mais-viver como se fosse um mal. Do mesmo modo que, na refeição, ele não faz questão absoluta da quantidade desmesurada, mas dá maior valor à preparação gostosa, igualmente na vida não se preocupa com o tempo que esta dura, mas sim com a delícia da colheita que ela lhe traz.”(22)

Epicuro vai além, tentando mostrar racionalmente o quanto o medo da morte pode atrapalhar a nossa vida: “Nascemos uma única vez; uma segunda vez não nos é dada, e não nasceremos mais por toda a eternidade. Apesar disso, adias constantemente o instante certo e não és dono do dia vindouro. Nessa vacilação, porém, desvanece-se a vida e muitos morrem sem jamais se terem permitido um verdadeiro descanso.”(23) Podemos pensar aqui em Epicuro como talvez o primeiro psicanalista da História: ele não fala diretamente do conceito de inconsciente, mas antecipa essa percepção contemporânea, ao perceber que as pessoas carregam consigo um temor constante da morte, que pode se apresentar em manifestações disfarçadas tais como acumular riquezas, poder ou honrarias. Ou seja, consomem em excesso, tentam se eternizar através de obras de arte, se apegam a religiões ou crenças no pós-vida, no fundo, por causa do temor da finitude: “Alguns procuram fama e prestígio acreditando conseguir com isso segurança perante os homens. Se viverem em segurança, receberão então também esse bem natural. Se, porém, a sua vida não for segura, nem sequer possuem aquilo pelo que anseiam em primeiro lugar, obedecendo à sua natureza.”(24)
Uma outra percepção importante sobre a finitude que deve ser lembrada aqui é o eterno retorno nietzschiano, que aparece no aforismo 341 do A Gaia Ciência:

“O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo não mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente - e você com ela, partícula de poeira!’ – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: ‘Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!’ Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, ‘Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?’, pesaria sobre seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?”(25)

Assim, querer a repetição do mesmo nos faz querer viver bem cada momento. E para uma vida onde se viveu bem cada momento, valorizando-se o que estava presente e não a falta (como tenta nos fazer viver a propaganda, em nosso mundo consumista atual), a eterna repetição é uma benção e não uma maldição. Sob esse prisma, viver temendo a morte seria uma eterna maldição, realmente, e, ao contrário, viver saboreando cada instante seria um prazer eterno, independente do tempo. Esse pensamento do eterno retorno parece-me um instrumento de grande valor para tentarmos racionalmente vivermos bem o instante presente, que é o que a filosofia de Epicuro também defende: aproveitarmos bem cada momento desta nossa única e breve vida.
Há ainda outra perspectiva sobre o medo da morte que pode ser explorada a partir deste trecho da “Genealogia da Moral”:

"Esse homem que, por falta de inimigos e resistências exteriores, cerrado numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes, impacientemente lacerou, perseguiu, corroeu, espicaçou, maltratou a si mesmo, esse animal que querem amansar, que se fere nas barras da própria jaula, esse ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em câmara de tortura, insegura e perigosa mata - esse tolo, esse prisioneiro presa da ânsia e do desespero tornou-se o inventor da má consciência."(26)

Nietzsche escreve sobre o homem inventor da “má consciência”. No caso, é como se todos os instintos destruidores, criadores, ativos inerentes ao homem, pela falta de uso exterior, se voltassem para dentro do próprio homem, como um transbordamento de energia não utilizada no exterior. Com isso, ocorre o que o autor chama de uma "interiorização do homem". E é aqui que quero explorar melhor a questão da morte, ou do risco da morte, como algo necessário para Nietzsche. Da mesma forma que Sócrates fala no Fédon, o homem com a capacidade de filosofar, se vê como mais próximo da morte, que estaria ligada de forma inseparável à vida.
Especificamente na visão de Nietzsche, a infinidade de meios sociais criados para nos proteger da morte, acabou por deixar o homem num estado de interiorização, que me parece gerar mais e mais medo da morte: se você volta toda a sua atenção para o seu interior, qualquer mínima alteração interna afeta mais fortemente. Qualquer medo se torna maior e a idéia da morte como perda de si mesmo talvez pareça ainda mais tenebrosa. Quanto mais reforçamos as paredes e sistemas de segurança e de vigilância de um cofre, mais atenção damos ao que ele contém, e mais medo temos de perder seu conteúdo. Isso explicaria porque vivemos numa sociedade onde brota a "síndrome do pânico", que consiste, resumidamente, num medo fortíssimo e sem causa lógica. Não seria justamente uma necessidade do corpo, da nossa "grande razão", de ter algum medo, alguma sensação de risco em meio a tanta segurança? Pergunto-me se haverá algum estudo sobre a incidência dessa síndrome nos praticantes de bungee jumping ou de qualquer esporte que envolva um risco mortal. Talvez o grande problema seja que nos falta aceitar, filosoficamente, a morte. Assim como o envelhecimento. Queremos fazer plásticas para parecermos jovens, tomar remédios para não envelhecer, pagar plano de saúde para não morrer, etc. Os médicos mantêm vivas com aparelhos pessoas com cada vez mais idade, inconscientes, sem a capacidade de falar, de ouvir, de ver, de comer, de tocar... Para quê? Por quê? De qualquer forma, exploraremos a questão do homem contemporâneo no capítulo final deste trabalho.
Não há em Nietzsche uma resposta para algum tipo de vida coletiva diferente da nossa sociedade, baseada em cerceamentos individuais e busca de paz e segurança. Para ele, qualquer certeza, aliás, é uma vontade iludida de fazer sentido. Mas, pelo menos, sua filosofia nos faz repensar essa vontade de fixidez, de certezas absolutas. Epicuro também consegue esta proeza, tão necessária ao homem de nossa época.


CAP. 5 - O pensamento de Epicuro e Nietzsche na realidade contemporânea

Hoje, a indústria do medo alimenta o consumismo. O jornalismo, mantendo-se no padrão de sempre, reduzindo o mundo às catástrofes do dia, é um dos principais fortalecedores do medo na população. A violência, as desgraças, as falcatruas e os esportes para finalizar os telejornais, são apresentados como realidade, como se o mundo se resumisse a essa percepção distorcida que convence bilhões de pessoas diariamente. De que forma, na prática, isso alimenta o consumismo? Com medo, ficamos mais em casa. Em casa, para a população de mais alta renda (os que mais interessam para as vendas), com TV a cabo, videogames, entregas à domicílio, internet etc. Vendo o mundo por intermédio de telas, mas “protegidos”. E o que as telas nos mostram? Mais violência e tragédias, gerando um desejo de ainda mais proteção, para evitar essa parte sinistra, ruim da vida. A opção para se sair de casa com segurança nas grandes cidades acaba sendo só uma: shoppings centers – os templos do consumo, onde podemos comprar aquilo tudo que pensamos desejar. Esquecendo, assim, da sabedoria de Epicuro: o que realmente precisamos para a felicidade é simples e fácil de obter (“A riqueza exigida pela natureza é limitada e facilmente arranjada; aquela, pelo contrário, que ambicionamos possuir num tolo desejo, chega ao infinito.”(27) ). Isso graças à avalanche de propagandas com que somos bombardeados constante e ininterruptamente. O filósofo suíço Alain de Botton, em um de seus belos programas da série “Filosofia para o dia-a-dia”, coloca uma equipe de Marketing para fazer propagandas (ou seriam anti-propagandas?) com as ideias epicuristas. Achei marcante um outdoor que inventaram com uma bela casa à venda, com uma linda paisagem e todos os recursos da propaganda utilizáveis, porém, em letras pequenas, no canto da imagem, a frase: “Felicidade não incluída.”
Voltando ao tema do medo, ele gera uma vontade de certezas, de algo firme, que muitas vezes leva as pessoas a procurarem refúgios nas religiões e seus dogmas. Vivemos uma indústria de igrejas enriquecendo também com o medo de seus fiéis, no Brasil e em boa parte do mundo.
Epicuro desenvolveu sua filosofia contra o medo (e o consumismo que dele resulta). Sua filosofia produz um homem equilibrado, que usa a razão e é livre dos padrões das maiorias. Esse tipo de homem é cada vez mais raro em nosso tempo. Nietzsche criticou a passividade do homem, fundamentada na religião, e o esfacelamento da vontade no homem moderno. Por isso, penso ser tão importante retomarmos essas filosofias na contemporaneidade.

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(5) NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Aforismo 45, p. 87.
(6) NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Aforismo 200, p. 86.
(7) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 12.
(8) DL, X, 37.
(9) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 16.
(10) NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Aforismo 276, ps. 187 e 188.
(11) NIETZSCHE, F. O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 10.
(12) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(13) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(14) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(15) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio, máxima 13.
(16) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafo 3.
(17) NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 31.
(18) NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 43.
(19) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio, máxima 2.
(20) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Heródoto, parágrafo 64.
(21) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Heródoto, parágrafo 66.
(22) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Carta a Meneceu, parágrafos 4, 5 e 6.
(23) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismo retirado do Codex Vaticanus graec. 1950 do século XIV, ou Gnomologium Vaticanum.
(24) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio. Máxima 7.
(25) NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Aforismo341, p. 230.
(26) NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 73.
(27) EPICURO, Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. Aforismos de Diógenes Laércio. Máxima 15.